domingo, 12 de janeiro de 2014

SESSÃO 16: 27 DE JANEIRO DE 2014


CASABLANCA (1942)

“Com o início da II Guerra Mundial, muitos olhos, numa Europa aflita, voltaram-se esperançadamente ou desesperadamente para a liberdade da América. Lisboa tornou-se o grande porto de embarque. Mas nem todos podiam chegar lá directamente. Por isso criou-se um tortuoso caminho para refugiados. De Paris até Marselha, atravessando o Mediterrâneo até Oran, depois a pé, de carro ou de comboio, até Casablanca, no Marrocos francês. Aí, os afortunados, com dinheiro, influência ou sorte talvez conseguissem vistos para Lisboa. E de lá até ao Mundo Novo. Os outros, esperavam em Casablanca. Esperavam, esperavam…”
Assim começa “Casablanca”, filme de Michael Curtiz, de 1942, que rapidamente se tornou numa das obras míticas da sétima arte, um dos filmes mais amados de sempre, por muitos considerado um dos três melhores títulos de toda a história do cinema. Para este triunfo sem paralelo conjugaram-se vários factores, desde a definição das personagens, as situações descritas e os conflitos esboçados, o ambiente romântico, os valores defendidos, a altura em que o filme aparece, mas também a qualidade dos actores, a eficácia e justeza da realização, e toda a equipa técnica reunida. Um acto de magia que possibilitou que a soma dos ingredientes fosse algo mais do que isso mesmo.
O filme parte de uma peça teatral da autoria de Murray Burnett e Joan Alison, “Everybody Comes To Rick's” ("Toda a gente vem ao Rick’s", na sua tradução literal, sendo que o Rick’s aludido é um café). Parece que nenhum teatro da Broadway aceitou então encenar a obra, e pouco depois o casal de dramaturgos vendiam todos os direitos sobre a obra à Warner Bros., para servir de base a um filme. Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch adaptaram-na para cinema com mestria, introduzindo diversas alterações, mas mantendo grande parte do contexto da peça e das personagens. Murray Burnett e Joan Alison explicaram que o tema lhes foi inspirado aquando de uma viagem pela Europa, em 1938, quando visitaram Viena para ajudarem alguns familiares judeus a exilarem-se, e posteriormente a Riviera francesa, precisamente Juan-les-Pins, onde encontram, num café a deitar sobre o Mediterrâneo, um pianista negro. Num outro local de Viena, tinham visitado um bar chamado "Le Kat Ferrat" que serviu de modelo ao “Rick’s Café Americain”, e a canção “As Time Goes By” era a preferida de Murray Burnett desde a sua adolescência. Do manuseamento destes tópicos nasceria a peça que nunca foi publicada e representada só depois de 1991, precisamente no Whitehall Theatre, de Londres. Mas as personagens da peça estavam um pouco longe das criadas por Humphrey Bogart (Richard Blane) e Ingrid Bergman (Ilsa Lund Laszlo, na peça era americana e chamava-se Lois Meredith). Rick (que na peça era advogado) tratava a sua ex-paixão por "bitch" e referia-se ao seu pianista negro como "bastard", sendo que este era conhecido na peça por “the Rabit”. Por uma razão ou por outra (talvez o código Hays tenha tido algum influência nestas alterações!), o perfil das personagens foi transformado e o realismo cru da peça (cuja qualidade desconhecemos por completo) cedeu a um romantismo de boas causas e bons sentimentos, que ainda hoje comove os corações.


Mesmo assim, “Casablanca” teve problemas com a censura. Joseph Breen, membro do comité de auto-censura da indústria cinematográfica de Hollywood, não gostou nada da personagem do capitão Renault, que trocava favores sexuais de jovens louras por salvo-condutos, e também se opunha ao relacionamento de Rick e Ilsa por terem dormido juntos em Paris, sendo ela casada. A argúcia dos argumentistas permitiu tornear os problemas, sem deixar de sugerir o que não ficava explícito. Mas essa era uma das habilidades impostas pelo código Hays, que impulsionou a criatividade e a sugestão como arma para contrariar o não permitido.
Humphrey Bogart no papel de Rick Blaine e Ingrid Bergman como Ilsa Lund arcam com grande parte da responsabilidade do clima mágico que o filme destila a cada imagem. Curiosamente, Bogart parece não ter sido a primeira escolha para este papel e Ronald Reagan, Dennis Morgan e George Raft chegaram a estar escalados, sendo substituídos finalmente por Bogey, que assume o centro nevrálgico desta obra: o dono de um café-bar na cidade de Casablanca, em Marrocos, durante a II Guerra Mundial, quando aquele território africano se encontrava sob administração francesa, ainda que controlado de perto pelas autoridades nazis. Igualmente o papel de Ilsa chegou a ser pensado para Ann Sheridan ou Michele Morgan.
Um dos pontos altos desta obra é a densidade dramática das personagens, de cujos passados se sabe muito pouco, mas que pesa de maneira decisiva sobre as suas acções no presente. De Rick pouco se sabe. Americano por nascimento, terá passado por conflitos como as guerras da Etiópia e a de Espanha, certamente do lado republicano, sabe-se perseguido, com a cabeça a prémio, e encontra-se em Casablanca refugiado, procurando evitar possíveis transtornos mais ou menos fatais. Dono do Rick’s Café Americain, procura não provocar ondas, nem dar nas vistas, assume a atitude cínica de quem não acredita já em ideais, e aceita a vida tal como ela se apresenta, sem vontade de mudar o mundo. Colabora com a corrupção instituída na cidade, suborna discretamente a autoridade francesa, na pessoa do capitão Louis Renault (Claude Rains), a quem atribui uma mesada no jogo forjado do seu casino clandestino, não tem escrúpulos em deixar cair Ugarte (Peter Lorre), um traficante viscoso que se prepara para sair da cidade com dois livre-trânsitos que lhe permitiriam chegar à América, conhece e domina todos os negócios escuros deste entreposto de espiões e refugiados, mas também deixa cair por vezes a máscara de indiferença, quando aceita ajudar um casal de jovens búlgaros apaixonados, que procuram a liberdade. Pressente-se assim que, por debaixo do rosto fechado e do olhar distante, existe um romântico sentimental como alguns colaboradores seus lhe chamam. É uma figura mítica deste o plano introdutório, quando aparece primeiro a sua mão a assinar um cheque, subindo só depois a câmara até descobrir o seu rosto.
Curiosamente, este é um filme de espionagem, de guerra, e de sentimentos, onde a todo o momento todos controlam todos, todos vigiam e se sentem vigiados. São os holofotes que percorrem as ruas da cidade, mas são também os olhares que se cruzam, as silhuetas que se esbatem contra os muros, os polícias que espreitam carteiristas e resistentes, as actividades clandestinas que permanecem para lá das buscas e das prisões, e dos assassinatos cometidos e depois explicados como “suicídios ou fugas à autoridade”. A cidade é uma teia com aranhas a cada canto, e vítimas indefesas a belo prazer dos contendores. O Rick’s Café assume-se como centro nevrálgico deste jogo mortal de caçada de gatos e ratos, mas onde explodem igualmente as paixões. Tão misteriosas como os jogos políticos e militares.
É neste contexto que surge um casal que irá transtornar toda a precária ordem estabelecida: Victor Lazlo (Paul Henreid), um dos líderes da resistência checoslovaca, perseguido por toda a Europa, depois de ter fugido de um campo de concentração nazi, entra no Rick’s Café acompanhado de sua mulher, Ilsa Lund (Ingrid Bergman). Ambos tentam também chegar à América, procurando meios de o conseguir em Casablanca. Julgam vir encontrar os dois salvo-condutos que Ugarte tinha em seu poder e entregara a Rick para os guardar, sendo depois preso e abatido pelas autoridades nazis. Mas Rick e Ilsa tinham-se conhecido em Paris, alguns dias antes da capital francesa ser invadida pelas tropas alemãs. Conheceram-se e amaram-se, e ambos recordam bem esses dias de felicidade e de tragédia. Quando se reencontram, relembram os últimos momentos na cidade luz, no mesmo dia que esta se transformava numa cidade trevas, quando os alemães caminhavam pelos “boulevards” parisienses. “Lembro-me de tudo, diz Rick, os alemães estavam de cinzento e tu de azul”. Descobre-se, através de um fabuloso flash-back, um dos motivos da desilusão de Rick e da sua amargura. Depois de dias de paixão intensa e juras de amor eterno, passados no “La Belle Aurore”, Ilsa abandonara-o nesse dia, deixando-o partir sozinho para Marselha, sem qualquer explicação.
O clima atinge o seu momento de dilacerante angústia. Várias personagens jogam as suas vidas a troco de dois salvo-condutos. O filme encontra o seu momento chave para fazer eclodir a tensão: no Rick’s Café um grupo de oficiais nazis, impulsionados pelo Major Strasser (Conrad Veidt), canta "Die Wacht am Rhein"(o guarda no rio Reno), um dos hinos patrióticos da Alemanha nazista. Sentado numa mesa, Victor Laszlo não se contém, dirige-se à orquestra do bar e manda avançar a “Marseillaise”, hino francês, que é executado com a aprovação tácita de Rick e cantado por todos os franceses presentes, em clara resposta ao desafio alemão. Raras vezes um filme conseguiu um tal efeito galvanizador das plateias. Era um repto à resistência, mas, mais do que isso, um repto à própria América. Não muitos minutos antes, Bogart relembrara a sua terra natal e pensara: “Devem estar todos a dormir na América!” A alusão parece clara, num filme todo feito de mistério e secretas insinuações. “Casablanca”, que começara a ser rodado a 25 de Maio de 1942, meses depois da entrada dos EUA na II Guerra Mundial, após o ataque japonês a Pearl Harbour (em Dezembro de 1941), exortava abertamente os americanos a acordarem para o que acontecia no mundo e a intervirem militarmente do lado dos Aliados.

Terminada a rodagem em Agosto de 1942, com um custo de produção de 1.039.000 milhões de dólares (75 mil acima do previsto no orçamento inicial), seria estreado rapidamente em Nova Iorque, a 26 de Novembro de 1942. Percebe-se que se tenha integrado no esforço de mobilização dos americanos para a compreensão do conflito e para o recrutamento de voluntários. Será curioso e sintomático verificar que só foi estreado em Portugal a 17 de Maio de 1945, quando já estava assegurada a derrota das forças do Eixo. Obviamente que só em 1946 se estreou no Japão, em Itália ou em Espanha, só em 1947 o seria em França e no ano seguinte na Áustria. Na Alemanha só surgiria nas salas de cinema em 1952. Tanto na Áustria como na RFA, a cópia fora remontada, certamente atenuando algumas passagens.
Voltando à obra, toda ela cruzada por sequências de extrema beleza, filmadas num glorioso preto e branco que a câmara de Arthur Edeson moldou de forma plástica, num claro escuro de um dramatismo envolvente, há que referir o seu final, pela exemplaridade narrativa e pela maneira hábil como encerra um intrincado conflito político e emocional, com a exemplar ordem do capitão Renault (“Prendam-se os suspeitos do costume”) e a cumplicidade de quem aceita ficar em Casablanca, depois de lançar no lixo uma garrafa de água de Vichy: “Este será o início de uma bela amizade”.
Rodado quase inteiramente em estúdio, mesmo os exteriores (a única cena em exteriores reais foi a chegada do Major Strasser ao aeroporto, rodada no Aeroporto Van Nuys), “Casablanca” utilizou parcialmente algumas ruas construídas para um outro filme, “The Desert Song”, onde por exemplo Ugarte é preso contra o cartaz do General Petain que afirma: “Mantenho as minhas promessas, mesmo as dos outros”. Quanto ao Café de Rick, este foi rodado em três cenários desligados entre si, e, na sequência final, o pequeno avião que se vê no aeroporto, por entre uma muito necessária neblina para encobrir imperfeições, trata-se de um réplica em papelão do L-12 Electra Júnior, da Lockheed.
O filme ganharia os Oscars de Melhor Filme do Ano (Warner Bros.), Melhor Realização (Michael Curtiz) e Melhor Argumento (Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch) e foi ainda nomeado para outras categorias onde não vingou: Melhor Actor (Humphrey Bogart), Melhor Actor Secundário (Claude Rains), Melhor Fotografia (Arthur Edeson), Melhor Montagem (Owen Marks) e Melhor Partitura (Max Steiner). Curiosamente, Ingrid Bergman, com um trabalho admirável, nem sequer chegou à nomeação. Mas rapidamente a obra atingiu a consagração dos mitos inesquecíveis.

CASABLANCA
Título original: Casablanca
Realização: Michael Curtiz (EUA, 1942); Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch, Casey Robinson, segundo peça de Murray Burnett e Joan Alison ("Everybody Comes to Rick's"); Produção: Hal B. Wallis, Jack L. Warner; Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Arthur Edeson; Montagem: Owen Marks; Direcção artística: Carl Jules Weyl; Decoração: George James Hopkins; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Perc Westmore; Direcção de produção: Al Alleborn; Assistentes de realização: Lee Katz; Departamento de arte: Harper Goff; Som: Francis J. Scheid, Edward Ullman; Efeitos especiais: Lawrence W. Butler, Willard Van Enger; Efeitos visuais: Chris Crowell; Companhias de produção: Warner Bros.-First National Picture; Intérpretes: Humphrey Bogart (Rick Blaine), Ingrid Bergman (Ilsa Lund), Paul Henreid (Victor Laszlo), Claude Rains (Capitão Louis Renault), Conrad Veidt (Major Heinrich Strasser), Sydney Greenstreet (Signor Ferrari), Peter Lorre (Ugarte), S.Z. Sakall (Carl), Madeleine Lebeau (Yvonne), Dooley Wilson (Sam), Joy Page, John Qualen, Leonid Kinskey, Curt Bois, Enrique Acosta, Marcel Dalio, etc. Duração: 102 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros. (DVD); Classificação etária: M/12 anos; Estreia em Portugal: 17 de Maio de 1945.

Sobre Michael Curtiz ver folha dedicada a “As Aventuras de Robin dos Bosques”
Sobre Humphrey Bogart ver folha dedicada a “A Relíquia Macabra”

INGRID BERGMAN (1915-1982)
Ingrid Bergman Nieuwenhoff nasceu a 29 de Agosto de 1915, em Estocolmo, Suécia, e viria a falecer em Londres, Inglaterra, precisamente no dia 29 de Agosto de 1982, com 67 anos de idade.
A mãe, alemã, morreu quando ela tinha dois anos. O pai, Justus Bergman, sueco, era fotógrafo e boémio, tendo transmitido à filha a paixão pelo teatro transmitiu à filha. Esta iniciou-se cedo em pequenas companhias amadoras e, em 1933, entra para a Real Escola de Arte Dramática de Estocolmo mas, antes de terminar o curso, estreia-se no cinema, com sucesso. Em dois anos participa em nove filmes, na Suécia. Em 1939, parte para Hollywood para protagonizar a versão americana de um dos seus maiores sucessos suecos, "Intermezzo". A partir daí, a sua carreira foi fulgurante, criando uma galeria de personagens de invulgar densidade e sedução, a que a sua beleza muito especial adicionava um “glamour” muito próprio. Interpretou obras-primas indiscutíveis, que vão de “Casablanca” a “Sonota de Outono”.
Ganhou Oscars para Melhor Actriz, em 1945, por “Gaslight” e, em 1957, por “Anastasia” e para Melhor Actriz Secundária, em 1975, para “Murder on the Orient Express”. Dois Emmys para Melhor Actriz em mini série de televisão, em 1982, por “A Woman Called Golda” e para Actriz Principal, em 1960, para “The Turn of the Screw”. Quatro Golden Globe, para Melhor Actriz em filme dramático, em 1945, para “Gaslight”, em 1946, para “The Bells of St. Mary's” e em 1957, para “Anastasia”, e ainda como Melhor actriz em mini série ou filme para televisão, em 1983, para “A Woman Called Golda”. Um César Honorário, em 1976, pela carreira. Um BAFTA, para Melhor Actriz Secundária, em 1975, para “Murder on the Orient Express”.
Casada com Petter Lindström (1937 - 1950), de quem teve uma filha, Pia; com  Roberto Rossellini (1950 - 1957), de quem teve três filhos, Roberto e as gémeas Isotta Ingrid e Isabella Rossellini, também actriz; finalmente com Lars Schmidt (1958 - 1975). A ligação com Roberto Rossellini foi tumultuosa, pois ambos eram casados quando se apaixonaram e abandonaram as respectivas famílias para viverem juntos. Ingrid foi acusada de adúltera e de dar mau exemplo às mulheres americanas, o que a impediu de filmar nos Estados Unidos durante alguns anos.
Morreu no dia em que completava 67 anos, depois de seis anos a lutar contra o cancro e depois de duas mastectomias. Um ano antes de falecer, Ingrid disse que se recusava a render-se à doença e que continuava a fumar e a beber vinho e champanhe. Encontra-se sepultada em Norra begravningsplatsen (Northern Cemetery), Estocolmo, Suécia.

Filmografia:
1932: Landskamp, de Gunnar Skoglund (não creditada)
1935: Munkbrogreven, de Edvin Adolphson e Sigurd Wallén (este não creditado)
1935: Bränningar, de Ivar Johansson
1935: Swedenhielms, de Gustaf Molander
1935: Valborgsmässoafton (Noite de Primavera), de Gustaf Edgren
1936: På solsidan (Para o Destino), de Gustaf Molander
1936: Intermezzo, de Gustaf Molander                                                                                                
1938: Dollar (O Dólar), de Gustaf Molander                                                                                        
1938: En kvinnas ansikte, de Gustaf Molander                                                                                     
1938: Die Vier Gesellen, de Carl Froelich
1939: En enda natt (Sedução), de Gustaf Molander                                                                              
1939: Intermezzo: A Love Story (Intermezzo), de Gregory Ratoff                                                            
1940: Juninatten (Noite de Tentação), de Per Lindberg                                                                       
1941: Adam Had Four Sons (Os Quatro Filhos de Adão), de Gregory Ratoff                                              
1941: Rage in Heaven (Tempestade), de W.S. Van Dyke e Robert B. Sinclair e Richard Thorpe (não creditados)
1941: Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Victor Fleming
1942: Casablanca (Casablanca), de Michael Curtiz
1943: For Whom the Bell Tolls (Por Quem os Sinos Dobram), de Sam Wood                                           
1943: Swedes in America, de Irving Lerner (curta-metragem)
1944: Gaslight (Meia-Luz), de George Cukor
1945: Saratoga Trunk (Saratoga), de Sam Wood
1945: Spellbound (A Casa Encantada), de Alfred Hitchcock
1945: The Bells of St. Mary's (Os Sinos de Santa Maria), de Leo McCarey                                                 
1946: American Creed, de Robert Stevenson (curta-metragem)                                                            
1946: Notorious (Difamação), de Alfred Hitchcock
1948: Arch of Triumph (O Arco do Triunfo), de Lewis Milestone
1948: Joan of Arc (Joana d'Arc), de Victor Fleming
1949: Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio), de Alfred Hitchcock
1950: Stromboli (Stromboli), de Roberto Rossellini
1952: Europa '51 (Europa 51), de Roberto Rossellini
1953: Siamo Donne (Nós, as Mulheres), de Gianni Franciolini ("Alida Valli"), Alfredo Guarini ("Concorso 4 Attrici 1 Speranza"), Roberto Rossellini ("Ingrid Bergman"), Luchino Visconti ("Anna Magnani") e Luigi Zampa ("Isa Miranda")
1954: Giovanna d'Arco al Rogo, de Roberto Rossellini
1954: Viaggio in Italia (Viagem em Itália), de Roberto Rossellini
1954: La Paura (O Medo), de Roberto Rossellini
1956: Anastasia (Anastásia), de Anatole Litvak
1956: Elena et les Hommes (Helena e os Homens), de Jean Renoir
1958: Indiscreet (Indiscreto), de Stanley Donen
1958: The Inn of the Sixth Happiness (A Pousada da Sexta Felicidade), de Mark Robson
1959: The Turn of the Screw, de John Frankenheimer, em Startime (série de TV)
1961: Aimez-Vous Brahms?, de Anatole Litvak
1961: Auguste, de Pierre Chevalier (cameo)
1961: Twenty-Four Hours in a Woman's Life, de Silvio Narizzano (TV)
1963: Hedda Gabler, de Alex Segal (TV)
1964: The Visit (A Visita), de Bernhard Wicki
1964: The Yellow Rolls-Royce (O Rolls-Royce Amarelo), de Anthony Asquith
1966: The Human Voice, de Ted Kotcheff (TV)
1967: Stimulantia, de Hans Abramson ("Upptäckten"), Hans Alfredson ("Dygdens belöning"), Arne Arnbom ("Birgit Nilsson"), Ingmar Bergman ("Daniel"), Tage Danielsson ("Dygdens belöning"), Jörn Donner ("Det var en gång två älskande..."), Lars Görling ("Konfrontationer"), Gustaf Molander ("Smycket") e Vilgot Sjöman ("Negressen i skåpet") (Episódio: "Smycket")   
1969: Cactus Flower (A Flor de Cacto), de Gene Saks
1970: Henri Langlois 
1970: A Walk in the Spring Rain (Chuva na Primavera), de Guy Green                                                    
1973: From the Mixed-Up Files of Mrs. Basil E. Frankweiler, de Fielder Cook                                           
1974: Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet
1976: A Matter of Time, de Vincente Minnelli
1977: Great Performances: Childhood Host
1978: Höstsonaten (Sonata de Outono), de Ingmar Bergman
1979: The American Film Institute Salute to Alfred Hitchcock

1982: A Woman Called Golda, de Alan Gibson (TV)

SESSÃO 15: 20 DE JANEIRO DE 2014


RELÍQUIA MACABRA (1941)


“Relíquia Macabra” é primeira realização de John Huston, rodada em 1941, assinalando por isso a sua estreia como realizador, depois de um período de ambientação a Hollywood, como actor e, sobretudo, como argumentista. Um romance policial do sempre notável Dashiel Hammett, um dos mais negros escritores da literatura norte-americana, serve de base a esta obra-prima do cinema da década de 40, que muitos consideram a do apogeu do "filme negro" e do policial.
A adaptação do romance de Dashiel Hammett foi feita pelo próprio John Huston que havia ganho reputação neste campo nos anos anteriores, cingindo-se aqui muito fielmente ao espírito e à letra da obra literária, não deixando, porém, de introduzir um toque muito pessoal da sua filosofia da vida. Na verdade, esta denúncia da ambição desmedida e da cobiça acaba por se mostrar espúria, tal como mais tarde o verficara igualmente o protagonista de “O Tesouro de Sierra Madre”. Esta matéria “de que são feitos os sonhos” nem sempre compensa.
Sam Spade, interpretado por Humphrey Bogart, aqui no seu segundo grande papel, após “High Sierra”, e no primeiro em que não é um vilão assumido e se passa para o lado do combate ao crime, é um detective privado que, depois da morte de um sócio, Miles Archer, camarada de profissão, se vê envolvido na perseguição de uma estatueta, precisamente “The Maltese Falcon” que dá o nome à versão original. Uma estatueta que tem uma longa história para contar, pois, como se conta na legenda inicial, “Em 1539, os Templários de Malta pagaram tributo a Carlos V de Espanha eviando-lhe um falcão em ouro, com joias raras inscrustadas dos pés à cabeça. Mas os piratas avistaram a galera que transportava esta peça valiosa e o paradeiro do Falcão de Malta permaneceu um mistério até então”. A caça ao tesouro intensifica-se em São Francisco, quando uma bela mulher entra no escritório dos detectives “Spade and Archer” e os assassinatos começam a acontecer.
Mas, para lá do complexo e labiríntico entrecho, o que mais ressalta é o retrato admiravelmente justo da sociedade norte-americana da época,a agilidade e precisão do diálogo, e a perfeição do "casting", escolhendo actores que se identificam de tal forma com as personagens que hoje em dia se torna impensável vê-las sob outras aparências: Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Sydney Greenstreet, que o acaso reuniu nesta obra, e o calculismo dos produtores viria a juntar em muitas outras seguintes, constituem uma das mais brilhantes galerias de tipos que um só filme conseguiu reunir.
Curioso será relembrar que, inicialmente, quem estava para interpretar os papéis criados por Bogart e Astor eram George Raft e Ann Sheridan, vedetas nº. 1 da Warner Brothers.  Mas, o destino tece-as, e, por uma razão ou por outra, quem afinal surgiu foi quem nós hoje vemos neste filme mítico, uma obra de referência obrigatória, um marco na carreira cruzada de vários talentos.
A tudo isto, há que acrescentar, "last but not least", o talento narrativo, a subtileza de escrita e a ironia desencantada, um pouco cínica mesmo, de um John Huston em apuramento de estilo e de forma.

RELÍQUIA MACABRA
Título original: The Maltese Falcon
Realização: John Huston (EUA, 1941); Argumento: John Huston, segundo romance de Dashiell Hammett; Produção: Henry Blanke, Hal B. Wallis; Música: Adolph Deutsch; Fotografia (p/b): Arthur Edeson; Montagem: Thomas Richards; Direcção artística: Robert M. Haas; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Perc Westmore, Frank McCoy, Jean Udko; Direcção de produção: Al Alleborn; Assistentes de realização: Claude Archer, John Prettyman, Jack Sullivan; Departamento de arte: John Gilbert Kissel, William McConnell; Som: Oliver S. Garretson; Companhias de produção: Warner Bros.-First National Picture; Intérpretes: Humphrey Bogart (Samuel Spade), Mary Astor (Brigid O'Shaughnessy), Gladys George (Iva Archer), Peter Lorre (Joel Cairo), Barton MacLane (Detective Dundy), Lee Patrick (Effie Perine), Sydney Greenstreet (Kasper Gutman), Ward Bond (Detective Tom Polhaus), Jerome Cowan (Miles Archer), Elisha Cook Jr., James Burke, Murray Alper, John Hamilton, Charles Drake, Chester Gan, Creighton Hale, Robert Homans, William Hopper, Walter Huston, Hank Mann, Jack Mower, Emory Parnell, etc. Distribuição em Portugal: Warner Bros. (DVD); Classificação etária: M/12 anos; Duração: 100 minutos; Estreia em Portugal: 8 de Agosto de 1945.

JOHN HUSTON (1906-1987)
John Marcellus Huston nasceu no Nevada, Missouri, EUA, a 5 de Agosto de 1906, e faleceu em Middletown, Rhode Island, EUA, a 28 de Agosto de 1987. Filho de Rhea Gore, jornalista, e de Walter Huston, actor, que se divorciaram quando John Huston tinha apenas seis anos. Débil de saúde, esteve num sanatório, em virtude de problemas de coração e rins. Após os estudos primários, dedicou-se ao boxe e a outros exercícios físicos para melhorar a sua saúde. Estudou pintura e trabalhou algum tempo como jornalista e redactor. Em 1933, acidentalmente, atropela e mata a actriz brasileira Diva Tosca, companheira de Raul Roulien, actor e realizador, também brasileiro. Em 1935, é contratado pela Warner Brothers como argumentista, tendo adquirido celebridade nesta função que nunca abandonaria. Escreveu quase todos os seus filmes, a solo ou em colaboração, e estreou-se na realização em 1941, com “The Maltese Falcon” (Relíquia Macabra), adaptando um romance de Dashiell Hammett. Com esse filme, impõe-se como um dos mestres do “filme noir”, tendo dirigido ainda outros clássicos do género. Assinou dezenas de obras de grande qualidade e de estilo inconfundível, abordando alguns temas que lhe eram particularmente caros: a ganância que leva à total perca e o orgulho desmedido, a aventura pessoal e a obsessão, a incorruptibilidade perante o crime (todos eles presentes desde a sua primeira obra). Rebelde e irrequieto, espírito livre e justo, além do cinema, onde foi um pouco de tudo, incluindo actor, com uma carreira particularmente extensa e ilustre, sendo varas vezes nomeado para os maiores prémios da categoria, interessou-se pela pintura, a escultura, o boxe, o jogo, a caça, entre outros. As suas filmagens em África (“The African Queen” ou “The Roots of Heaven”), intercaladas com caçadas, serviram de base a um filme de Clint Eastwood, “Caçador Branco, Coração Negro” (White Hunter Black Heart. 1990). Foi pai da actriz Anjelica Huston e do actor Tony Huston, filhos do seu casamento com Ricki Soma, e do actor Danny Huston, do seu relacionamento com Zoe Sallis.
Adquiriu a cidadania irlandesa em 1964. Casou com Dorothy Jeanne Harvey (1926 - 1933), Lesley Black (1937 - 1945), Kvelyn Keyes (1946 - 1950), Enrica Sonia Soma (1950 - 1969) e Celeste Shane (1972 - 1975). Trabalhou muito com o pai, Walter Huston, e com actores da sua predilecção como Humphrey Bogart, Jack Nicholson ou a filha Anjelica Huston. É o único realizador a dirigir pai e filha em obras onde conseguiram Oscars. Foi um dos grandes de Hollywood, com uma carreira repleta de sucessos. Várias vezes nomeado para Oscars, Globos, grandes prémios em festivais, como Cannes e Veneza, alcançou a maior notoriedade. Numa votação popular, a revista Entertainment Weekly considerou-o o 13º maior realizador de sempre. Está sepultado no Hollywood Memorial Cemetery, agora chamado Hollywood Forever, em Hollywood, Califórnia, EUA.

Filmografia
Como realizador
1941: The Maltese Falcon (Relíquia Macabra)
1942: In This our Life (Nascida para o Mal)
1942: Across the  Pacific (Garras Amarelas)
1943: Report from the Aleutians (documentário para a série “Why We Fight”)
1945: San Pietro (documentário militar)
1946: Let There be Light (documentário militar)
1948: The Treasure of the Sierra Madre (O Tesouro de Sierra Madre)
1948: Key Largo (Paixões em Fúria)
1949: We Were Strangers (Os Insurrectos)
1950: The Asphalt Jungle (Quando a Cidade Dorme)
1951: The Red Badge of Courage (Sob a Bandeira da Coragem)
1952: The African Queen (A Rainha Africana)
1953: Moulin Rouge (Moulin Rouge)
1954: Beat The Devil (O Tesouro de África)
1956: Moby Dick (Moby Dick)
1957: Heaven Knows Mr. Allison (O Espírito e a Carne)
1958: The Barbarian and the Geisha (O Bárbaro e a Geisha)
1958: The Roots of Heaven (As Raízes do Céu)
1960: The Unforgiven (O Passado não Perdoa)
1961: The Misfits (Os Inadaptados)
1962: Freud (Freud, Além da Alma)
1963: The List of Adrian Messenger (As Cinco Caras do Assassino)
1964: The Night of Iguana (A Noite da Iguana)
1966: The Bible (A Bíblia)
1967: Casino Royal (Casino Royal) (co-realização com Robert Parrish, Val Guest e Ken Hughes) 
1967: Reflections in a Golden Eye (Reflexos num Olho Dourado)
1969: Sinful Davey (Davey, o Folgazão)
1969: A Walk with Love and Death (Entre o Amor e a Morte)
1970: The Kremlin Letter (A Carta do Kremlin)
1972: Fat City (Cidade Viscosa)
1972: The Life and Times of Judge Roy Bean (O Juiz Roy Bean)
1973: The Mackintosh Man (O Misterioso Mr. Mackintosh)
1975: The Man who would be King (O Homem que Queria Ser Rei)
1980: Wise Blood (Sangue Selvagem)
1980: Phobia (Os 5 Álibis)
1981: Victory (Fuga para a Vitória)
1982: Annie (Annie)
1984: Under the Vulcano (Debaixo do Vulcão)
1985: Prizzi's Honor (A Honra dos Padrinhos)
1987: The Dead (Gente de Dublin)

HUMPHREY BOGART (1899-1957)
Humphrey DeForest Bogart, também conhecido por Bogie ou Bogey, nasceu em Nova Iorque, EUA, a 25 de Dezembro de 1899 e faleceu em Hollywood, Califórnia, EUA, a 14 de Janeiro de 1957, vítima de cancro. O American Film Institute elegeu-o como a maior estrela masculina do cinema norte-americano de todos os tempos. Ganhou um Oscar da Academia, com A Rainha Africana, em 1951.
Era o filho mais velho de Belmont DeForest Bogart e Maud Humphrey, ele médico cirurgião e ela artista gráfica. A sua juventude decorreu calmamente, no confortável no bairro de Upper West Side, em Nova York, e estudou numa escola particular prestigiada, a Trinity School, e posteriormente na Escola preparatória Phillips Academy, em Andover, Massachusetts. Estava destinado a estudar medicina na Universidade de Yale, mas foi expulso por comportamento rebelde, e resolveu ir conduzir camiões. Durante a I Guerra Mundial, alistou-se na Marinha e, em 1918, o navio onde se encontrava foi atacado por submarinos e um fragmento de madeira rasgou-lhe a boca, afectando para sempre sua maneira de falar. Um ferimento nunca é abençoado, mas neste caso ajudou muito na criação da sua mística.
Em 1921, começava a sua carreira de actor nos palcos, em Brooklyn. Entre 1922 e 1925, apareceu em 21 produções da Broadway. Na época, Bogart conheceu Helen Menken, com quem se casou, para se separar um ano depois e voltar a casar, em 1928, com a actriz Mary Philips.
Em 1934, Bogart interpretou a peça "Invitation to a Murder" e o produtor Arthur Hopkins gostou de o ver e convida-o para fazer parte do elenco de “The Petrified Forest”, representando o papel de Duke Mantee, um sinistro e perigoso fugitivo da cadeia. A peça contou 197 apresentações em Nova York. Pouco depois, a Warner Bros comprou os direitos da peça para adaptá-la ao cinema, e assinou contrato com o protagonista no teatro, Leslie Howard, que insistiu em manter Bogart como companheiro de elenco no cinema. “A Floresta Petrificada”, estreado em 1936, contava ainda com a participação de Bette Davis, e foi um sucesso que catapultou Bogart inicialmente para uma carreira de vilão (excelente exemplo: “Angels with Dirty Faces”, de 1938) e, depois de “Relíquia Macabra” (1941), uma realização do seu amigo de sempre, John Huston, passando-se para o outro lado da lei, nomeadamente como detective privado.
Em 1938, Bogart casa-se pela terceira vez, agora com a actriz Mayo Methot, casamento que acabou rapidamente. Aquando da rodagem de “Casablanca” (1943), Mayo acusou-o de ter um caso com Ingrid Bergman, e Bogart divorciou-se, só voltando a casar, em 1945, com o grande amor da sua vida, Lauren Bacall. Estranhamente, Ingrid Bergman confessou anos depois que quase não se falaram fora do estúdio e disse mesmo mais. "Eu beijei-o, mas nunca o conheci". "Casablanca" tornou-se rapidamente numa das obras míticas da sétima arte e o actor passaria para sempre a estar colado a um frase que nunca disse: “Play it again, Sam!”.
Entre 1943 e 1955, Bogart foi acumulando criações de personagens inesquecíveis (“To Have and Have Not” (1944), “The Big Sleep” (1946), “Dark Passage” (1947), “Key Largo” (1948), “The Treasure of the Sierra Madre” (1948), ou “In a Lonely Place” (1950)… ). Em 1949, fundou sua própria produtora, a Santana Productions. Em 1951, Bogart entra em “A Rainha Africana”, de novo sob as ordens de John Huston, e ao lado de Katharine Hepburn. Foi o seu primeiro filme a cores, e com o seu trabalho como Charlie Alnutt conquistou finalmente o Oscar de melhor actor. Em 1954, rodou “The Caine Mutiny” (Os Revoltados do Caine), de Edward Dmytryk, segundo romance homónimo de Herman Wouk, que ganhara o Prémio Pulitzer em 1951, no papel do esquizofrénico Capitão Queeg. No mesmo ano, apareceu ainda em “Sabrina”, de Billy Wilder, e “The Barefoot Contessa” (A Condessa Descalça), de Joseph L. Mankiewicz. O seu derradeiro título foi “The Harder They Fall” (A Queda de um Corpo), de Mark Robson, no papel de Eddie Willis, um jornalista desportivo corrupto.
Morreu de cancro, devido talvez aos seus excessos de tabaco e álcool, no dia 14 de Janeiro de 1957. As suas cinzas encontram-se depositadas no Forest Lawn Memorial Park, Glendale, Los Angeles, EUA.

Filmografia:
1930: Broadway's Like That (curta-metragem)
1930: A Devil with Women, de Irving Cummings
1930: Up The River, de John Ford
1931: Body And Soul (De Corpo e Alma), de Alfred Santell
1931: Bad Sister, de Hobart Hentley
1931: Women of All Nations (Mulheres de Todas as Nações), de Irving Cummings 
1931: Holy Terror, de Irving Cummings
1932: Love Affair, de Thornton Freeland
1932: Big City Blues, de Mervyn Le Roy
1932: Three on a Match, de Mervyn Le Roy
1934: Midnight, de Chester Erskine
1936: The Petrified Forest (A Floresta Petrificada), de Archie Mayo
1936: Bullets or Ballots (Guerra ao Crime), de William Keighley
1936: Two Against the World, de William Mcgann
1936: China Clipper, de Ray Enright
1936: Isle of Fury (A Ilha da Fúria), de Frank McDonald
1937: Black Legion, de Archie Mayo    
1937: The Great O'Malley (A Sétima Esquadra), de William Dieterle
1937: Marked Woman (A Mulher Marcada), de Llyod Bacon
1937: Kid Galahad (O Mais Forte), de Michael Curtiz
1937: San Quentin (Algemas Quebradas), de Lloyd Bacon
1937: Dead End (As Ruas de Nova Iorque), de William Wyler
1937: Stand-In (Fábrica de Ilusões), de Tay Garnett
1938: Swing Your Lady, de Ray Enright
1938: Crime School (A Melhor Vitória), de Lewis Seiler
1938: Men are such Fools, de Busby Berkeley
1938: The Amazing Dr. Clitterhouse (O Génio do Crime), de Anatole Litvak
1938: Racket Buster, de Lloyd Bacon
1938: Angels With Dirty Faces (Anjos de Cara Suja), de Michael Curtiz
1939: King of The Underworld (Contra a Lei), de Lewis Seiler
1939: The Oklahoma Kid (A Lei da Força), de Lloyd Bacon
1939: Dark Victory (Vitória Amarga), de Edmund Goulding
1939: You Can't Get away with Murder (Explorando o Crime), De Lewis Seiler
1939: The Roaring Twenties (Heróis Esquecidos), de Raoul Walsh    
1939: The Return of Doctor X (A Volta do Dr. X), de Vincent Sherman
1939: Invisible Stripes (Homens Marcados), de Lloyd Bacon
1940: Virginia City (Duas Causas), de Michael Curtiz
1940: It All Came True (Um Sonho para Dois), de Lewis Seiler
1940: Brother Orchid (Orquídea Brava), de Lloyd Bacon
1940: They Drive by Night (Vidas Nocturnas), de Nicholas Ray
1941: High Sierra (O Último Refúgio), de Raoul Walsh
1941: The Wagons Roll All Night (O Que as Trevas Ocultam), de Ray Enright
1941: The Maltese Falcon (Relíquia Macabra), de John Huston
1942: All Through the Night (Manobras Ocultas), de Vincent Sherman
1942: The Big Shot (Voltando ao Passado), de Lewis Seiler
1942: Across the Pacific (Garras Amarelas), de John Huston
1943: Casablanca (Casablanca), de Michael Curtiz
1943: Action in the North Atlantic (Comboio para o Leste), de Lloyd Bacon
1943: Thank Your Lucky Stars (Brilham as Estrelas), de David Butler
1943: Sahara (Sahara), de Zoltan Korda
1944: Passage To Marseille (Passagem para Marselha), de Michael Curtiz
1944: Report From The Front (documentário de propaganda da Cruz Vermelha)
1945: To Have and Have Not (Ter ou Não Ter), de Howard Hawks
1945: Conflict (Conflitos de Alma), de Curtis Bernhardt
1945: Hollywood Victory Caravan, de William Russell (documentário de propaganda)
1946: Two Guys From Millwaukee, de David Butler (artista convidado)
1946: The Big Sleep (À Beira do Abismo), de Howard Hawks
1947: Dead Reckoning (Maldita Mulher), de John Cromwell
1947: The Two Mrs. Carrolls (Inspiração Trágica), de Peter Goodfrey
1947: Dark Passage (O Prisioneiro do Passado), de Delmer Daves
1948: Always Together, de Frederick de Cordova (artista convidado)
1948: The Treasure of The Sierra Madre (O Tesouro de Sierra Madre), de John Huston
1948: Key Largo (Paixões em Fúria), de John Huston
1949: Knock on Any Door (O Crime não Compensa), de Nicholas Ray
1949: Tokyo Joe (O Império de Tóquio), de Stuart Heisler
1950: Chain Lightning (A Morte não é o Fim), de Stuart Heisler
1950: In a Lonely Place (Matar ou Não Matar), de Nicholas Ray
1951: The Enforcer (Sem Consciência), de Bretaigne Windust
1951: Sirocco (Vento do Deserto), de Curtis Bernhardt
1951: The African Queen (A Rainha Africana), de John Huston
1952: Deadline Usa (A Última Ameaça), de Richard Brooks
1952: U.S. Saving Bonds Trailer (documentário de propaganda)
1953: Battle Circus (O Circo Infernal), de Richard Brooks
1954: Beat the Devil (O Tesouro de África), de John Huston
1954: The Caine Mutiny (Os Revoltados do Caine), de Edward Dmytryk
1954: Sabrina (Sabrina), de Billy Wilder
1954: The Barefoot Contessa (A Condessa Descalça), de Joseph L. Mankiewicz
1955: We're no Angels (Veneno de Cobra), de Michael Curtiz
1955: The Left Hand of God (A Mão Esquerda de Deus), de Edward Dmytryk
1955: The Desperate Hours (Horas de Desespero), de William Wyler
1956: The Harder They Fall (A Queda de um Corpo), de Mark Robson



SESSÃO 14: 13 DE JANEIRO DE 2014


O MUNDO A SEUS PÉS


O início de “Citizen Kane” é admirável: grades de um portão. Um monograma: K. Um letreiro: interdita a passagem. A bruma e ao longe um castelo: Xanadu. De Kublan Khan a C. F. Kane. Uma janela vista do exterior, uma pequena luz que se mantém no mesmo ponto do écran, apesar dos planos que se sucedem, um corpo em silhueta, uma vela que se apaga. A mesma janela, agora do interior. A mesma silhueta. Nas mãos do “cidadão” uma bola de vidro com uma paisagem de neve. A bola de vidro rola dos dedos cansados para o chão, onde se parte. Dos lábios de Kane nasce uma palavra “Rosebud”. Um corte súbito na banda sonora e uma mancha apoteótica indicam o início da projecção de um jornal de actualidades. Irá principiar aqui a viagem em redor de um cidadão.
Quem era Charles Foster Kane? As “actualidades” mostram a diversidade de opiniões que os contemporâneos guardavam da sua memória: "É um comunista!”; “E um fascista!” As imagens das actividades públicas de Kane não permitem conclusões satisfatórias. Estamos ainda na epiderme de um homem e todas as contradições de uma sociedade como a americana são notoriamente visíveis. Kane foi, sucessivamente, e em simultâneo, uma infinidade de coisas, preenchendo com a sua vida os conceitos mais variados. O director do jornal de actualidades não se dá por satisfeito com a sucessão das imagens e quer ir mais além. Saber quem foi realmente Kane. Saber o que queria dizer “Rosebud”, sua última palavra. Para tentar descobrir isso, envia repórteres a interrogar os amigos e conhecidos daquele que em Xanadu morrera só.
Um dos jornalistas vai folhear memórias numa biblioteca, o que lhe permite penetrar na infância de Kane. O inquérito prossegue junto de Bernstein, que relembra o dia em que Kane entrou na redacção do “Inquire” e o casamento com a sobrinha do presidente dos EUA. Mais tarde, Leland evoca a crise política de Kane, descoberto pelo candidato rival numa aventura amorosa com uma cantora de ópera de décima ordem. Uma aventura que lhe custará o lugar para governador e o seu casamento.
De novo só, Kane casa-se com Susan, a quem obriga a ser cantora de ópera. É esta quem descreverá esses tempos, a sua tentativa de suicídio e, finalmente a separação. Kane só, em Xanadu, última parcela de um “puzzle”, será reconstruído pelo mordomo do palácio. Rosebud? Será a bola de vidro que lhe rodou das mãos no momento da morte?, pergunta-se o mordomo. Mas, entre os despojos de Xanadu, um trenó de criança é lançado às chamas. A madeira, vorazmente envolvida pelo fogo, deixa ver uma palavra: será essa a chave do enigma? O mundo da infância, perdido para sempre aos oito anos, será para Kane o centro do puzzle? O centro de um puzzle que o jornalista nunca descobrirá. Um segredo que Welles nos revela. Será esse um segredo pessoal?
Vemos assim como todo o filme se desenrola com uma investigação, uma peregrinação pelos labirintos íntimos de um homem. Dele temos, primeiramente, as imagens possíveis de qualquer jornal de actualidades. O que fez, quando fez, o que dele dizem, apressadamente, companheiros e adversários. Depois, lentamente, o círculo em redor de Kane vai-se fechando. São novos depoimentos, são novas reconstituições, novos “flashs backs” que penetram a memória e reconstituem o passado. Kane vai progressivamente ganhando uma presença diferente. A silhueta que dele víramos no início vai-se preenchendo de formas, “nuances”, sombras e, finalmente, o retrato, ainda que contraditório, ainda que ambíguo, ainda que polivalente, vai-se construindo. Charles Foster Kane é tão simplesmente um americano. Aliás esta ideia de “puzzle”, de reconstituição de imagens ou de tempo, está presente em “Citizen Kane” a vários níveis. São os monstruosos “puzzles” de Susan (que nunca chegamos a ver terminados), é esse enorme Xanadu, repositório de vários estilos, argamassa de tons diversos, «museu ideal» de Kane, é essa ânsia de aprisionar as próprias pessoas. Mesmo ao nível de sentimentos, Kane tenta organizar em redor de si um outro enorme “puzzle” de pessoas que o amem, o respeitem, o venerem. “Nada dando em troca”, como acusa Susan (que, no entanto, não pode deixar de lamentar o seu desaparecimento).
Orson Welles, com Kane, abre ao cinema os caminhos da modernidade. Com Orson Welles, com “Citizen Kane”, alguma da liberdade é restituída ao espectador. De que maneira? Pois, em primeiro lugar, pela forma como Welles faculta elementos de um “puzzle”, nunca impondo uma informação unívoca à figura. Isto é, para cada espectador Kane será, como para qualquer concidadão, uma figura a interpretar, a decifrar por si mesmo. O próprio Welles não saberá talvez quem é Kane, qual a posição a assumir frente a esta personagem. Na verdade, toda a filmografia de Welles nos mostra o extraordinário fascínio que certas figuras excessivas e demenciais exercem sobre o cineasta. É evidente que Welles se sente identificado com Kane; é óbvio que existem muitas afinidades entre as duas personagens. Mas, Orson Welles, lúcido e avisado, sabe os limites, conhece as falhas, oferece os dados que permitem criticar, ou distanciar, as figuras, reduzindo-as às suas verdadeiras dimensões.
Para conseguir manter esta liberdade de opção, Welles oscila entre diversos estilos, desde a aparente neutralidade narrativa, servindo-se para isso de actualidades (forjadas, evidentemente...), até uma construção barroca de planos, perfeitamente revolucionária na época. Na verdade, em “Citizen Kane”, à medida que se progride na complexidade e interiorização da figura, evolui-se também para uma maior complexidade narrativa, conjugando-se planos rapidíssimos, com planos-sequência, onde se nota um aturado trabalho de “mise en scène”, ao longo de toda a profundidade de campo, conduzido por hábeis movimentos de câmara.
O realizador empenha-se, não raro, em sobrecarregar os planos com uma carga emocional determinada não só através do enquadramento, da iluminação, da utilização de lentes grandes angulares (com o consequente aumento de profundidade de campo, que lhe irá permitir uma “mise en scène” em profundidade), como através do próprio traçado dos cenários (onde são visíveis influências do expressionismo) e no tratamento da banda sonora, invulgarmente trabalhada e cuidada, de forma a produzir certas clivagens no ritmo geral da narrativa (lembramo-nos, por exemplo, do grito de uma ave, presença perfeitamente gratuita na aparência, e que, todavia, irá provocar uma cisão no desenvolvimento dramático do filme).
Se o cinema americano tinha sido, até 1942, Griffith e John Ford, os artífices do classicismo, nada será como antes depois de “Citizen Kane”, que abre o cinema aos terrenos da modernidade. Um filme memorável, portanto, para o qual não se solicita a atenção do público, mas sim o seu amor. Orson Welles bem o merece. Ele continua a ser o “mestre”.

O MUNDO A SEUS PÉS
Título original: Citizen Kane
Realização: Orson Welles (EUA, 1941-1942); Argumento: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles (John Houseman e Joseph Cotten, não creditados); Montagem: Robert Wise e Mark Robson; Fotografia (preto e branco): Gregg Toland; Operador: Bert Shipman; Música: Bernard Herrmann; Cenários: Van Nest Polglase e Perry Ferguson; Decorador: Darrell Silvera; Assistente de realização: Richard Wilson; Som: Bailey Fesler, James G. Stewart; Efeitos especiais: Vernon L. Walker; Guarda-roupa: Edward Stevenson; Produtor: Orson Welles; Produtor associado: Richard Barr; Produtor executivo: George J. Schaefer; Produção: A Mercury Production by Orson Welles / RKO: Radio Pictures; Intérpretes: Orson Welles (Charles Foster Kane); Joseph Cotten (Jedediah Leland); Dorothy Comingore (Susan Alexander); Everett Sloane (Mr. Bernstein); Ray Collins (Boss J.W. "Big Jim" Gettys); George Coulouris (Walter Parks Thatcher); Agnes Moorehead (Mary Kane); Paul Stewart (Raymond), Ruth Warrick (Emily Norton Kane); Erskine Sanford (Herbert Carter); William Alland (Jerry Thompson); Fortunio Bonanova (Matisti); Gus Schilling (Mordomo do "Rancho"); Philip Van Zandt (Mr. Rawlston); Georgia Backus (Miss Anderson); Harry Shannon (Jim Kane); Sonny Bupp (Kane III); Buddy Swan (Kane aos 8 anos); Alan Ladd (Repórter); Arthur O'Connell (Repórter), Kathryn Trosper (Repórter), Richard Baer (Hillman), Charles Bennett (actor), Joan Blair (Georgia), Edmund Cobb (Repórter do Inquirer), Eddie Coke (Repórter), Gino Corrado (Gino, empregado), Herbert Corthell (editor do Inquiquer), Thomas A. Curran (Teddy Roosevelt), Louise Currie (Repórter), Robert Dudley (Fotógrafo), Al Eben (Mike), Edith Evanson (Enfermeira), Jean Forward (Cantora de Opera), Arthur Kay (Maestro), Milton Kibbee (Repórter), Alan Ladd (Repórter de cachimbo), Ellen Lowe (Miss Townsend), Herman J. Mankiewicz (Jornaleiro), Irving Mitchell (Dr. Corey), Frances E. Neal (Ethel), Thomas Pogue, Guy Repp (Repórter), Benny Rubin (Smather), Walter Sande (Repórter), Gregg Toland (Entrevistador), Patrick Whitney (Repórter), Tudor Williams (director de coros), Richard Wilson (Repórter), etc. Duração: 119 minutos; Rodagem: Hollywood (entre 30 de Julho e 23 de Outubro de 1940); Estreia: 9 de Abril de 1941 (New York Palace, Nova Iorque); Distribuição internacional; RKO Radio Pictures; Distribuição em Portugal (cópia nova): Filmes Lusomundo; Edição vídeo: Costa do Castelo; Classificação: M/ 12 anos.

ORSON WELLES (1915-1985)
Orson Welles nasceu em Kenosha, Wisconsin, E.U.A., a 6 de Maio de 1915. Apaixona-se muito cedo por Shakespeare, e aos 5 anos de idade, diz a lenda, já conhece de cor excertos de algumas das suas peças, que encena com marionetes num pequeno teatrinho que lhe ofereceu o seu tutor, Dr. Bernstein (nome que curiosamente aparece, atribuído a outro tutor, em “O Mundo a Seus Pés”). Entre os oito e os dez anos, estuda tragédia, aprende desenho e exercita-se no ilusionismo (fala-se num encontro com Houdini). Percorre o mundo na companhia de seu pai.  Aos doze anos funda, no colégio, um grupo teatral e pratica todos os desportos possíveis. Aos quinze, faz uma condensação das oito peças históricas de Shakespeare e recebe um prémio da Associação Dramática de Chicago por uma encenação de "Júlio César". Com 1,80 m de altura, aparece a fumar respeitáveis charutos e usa já monumentais chapéus. Aos dezasseis anos, apresenta-se na Irlanda como um dos "maiores actores americanos" e desempenha o papel do duque Alexandre de Wurttemberg (que tem a provecta idade de 80 anos) em "O Judeu Suss" e o do “Espectro” no "Hamlet". Aos dezoito anos, volta aos E.U.A., onde se lança na edição e ilustração das obras completas de Shakespeare; escreve uma biografia do herói abolicionista John Browne e parte para Marrocos e Espanha, onde se inicia na arte da tauromaquia. Aos dezanove anos, vemo-lo de novo na América, trabalhando como actor em "Romeu e Julieta" e como encenador em "As Três Irmãs", de Tchekov, e outras peças; casa-se então com a actriz Virgínia Nicholson, que lhe dá uma filha, baptizada com o nome masculino de Christofer. Em 1935-36, com a crise do teatro, inicia-se na rádio com a emissão quotidiana "March of Time", actualidades dramatizadas, onde empresta a voz a personalidades diversas, como Hitler, Mussolini ou Negus. Aos vinte e dois anos, graças  ao apoio da administração Roosevelt, funda, com John Houseman, o "Federal Theatre", onde encena um "Macbeth" inteiramente interpretado por negros. No ano seguinte, desaparecido o "Federal Theatre", funda o "Mercury Theatre", e continua, por outro lado, a trabalhar na rádio, com uma emissão, “The Mercury Theatre on the Air”, na CBS, onde, a 30 de Outubro de 1938, adaptando "A Guerra dos Mundos", de Herbert-George Welles, fantasia uma reportagem da invasão do planeta Terra pelos marcianos, cujo realismo provoca um pânico indescritível na América. Mais tarde, adaptará dezenas de peças à rádio, sobretudo no programa “The Campbell Playhouse”, ainda na CBS.
Em 1939, com a desaparição do "Mercury Theatre", cede às solicitações de Hollywood e assina com a R.K.O. um contrato mirabolante: um filme por ano, de que poderia ser, conforme desejasse, produtor, realizador, argumentista, intérprete... ou tudo ao mesmo tempo. E ainda 25 por cento dos lucros brutos e 150 mil dólares para começar! Depois das tentativas malogradas de adaptar "Heart of Darkness" (da obra homónima de Joseph Conrad, que só muitos anos mais tarde seria adaptada ao cinema por Francis Ford Copppola, em “Apocalipse Now”) e "The Smiler With a Knife", segundo Nicholas Blake, que não leva por diante, realiza, finalmente, em 1940, com 25 anos apenas, o seu primeiro filme: "O Mundo a Seus Pés". 
Entre 30 de Julho e 23 de Outubro de 1940, Orson Welles roda Citizen Kane, depois de ter passado um mês fechado numa sala de cinema, vendo e revendo obras de John Ford.  Depois, durante nove meses, com semanas de seis dias de trabalho, Welles monta este seu primeiro trabalho de realização. A 1 de Maio de 1941, o filme é estreado e acolhido pela crítica de forma invulgarmente entusiástica. Mas o público não adere a esta obra que se mostra profundamente revolucionária para o seu tempo. Welles dinamitara as regras, estilhaçara a ideia clássica do cinema e, do alto da sua orgulhosa figura, contemplava o campo de batalha e os destroços que vogavam ainda ao sabor da tormenta. 
Citizen Kane não teve apenas o desfavor do público. Antes ainda de ser estreado, tivera já grandes dificuldades para ser exibido, porquanto descobriram na obra grandes afinidades entre a figura de Charles Foster Kane e a do magnate americano William Randolph Hearst, que controlava uma vasta cadeia de jornais ao longo de toda a terra americana e que, por todos os meios ao seu alcance, tentou impedir a sua estreia.
Entretanto, continua a dedicar-se ao teatro e interessa-se pela ópera. Em 1942, ante a recusa da R.K.O. de o deixar produzir uma adaptação de "As Aventuras de Pickwick", realiza “O 4º. Mandamento” (The Magnificent Ambersons), recebido ainda mais friamente do que “Citizen Kane”, depois do que parte para a América do Sul, onde impressiona 30.000 m de película, com vista a uma triologia sobre a Argentina, o Brasil e o México, que não chegam a ir nunca à sala de montagem. Só muito recentemente se recuperou parte desse material, que agora se pode ver sob a designação de “It's All True”. Sempre de mal a pior com a R.K.O., intervém ainda em “Jornada do Medo” (Journey into Fear), onde contudo, figurará como realizador Norman Foster. Em 1943, divorciado já, volta a casar-se (desta feita com Rita Hayworth), e dedica-se a espectáculos de "music-hall" e de magia para os soldados. Em 1946, depois de interpretar vários filmes, volta à realização com “O Estrangeiro” (The Stranger), para em 1947, sob a pressão de dificuldades económicas, realizar “A Dama de Xangai” (The Lady from Shangai). Após este filme, rompe definitivamente com os grandes produtores de Hollywood, para realizar, em Inglaterra, com pouquíssimos recursos e em tempo mínimo, o seu primeiro filme shakespeariano: “Macbeth”. A este segue-se, em 1952, “Othelo”, rodado em Itália e no Norte de África, que conquista o Grande Prémio de Cannes. Em 1953, publica um romance satírico, “V.I.P”., cria o bailado "The Lady in the Ice", para Roland Petit, e intervém como intérprete em diversas películas. Logo depois, publica novo romance, “Mr. Arkadin”, que adapta ao cinema sob o nome de “Confidential Report” (Relatório Confidencial, 1954) e casa, pela terceira vez, desta feita com Paola Mori, condessa de Cifagio, e intérprete de “Mr. Arkadin”. 1956 marca o regresso a Hollywood, onde realiza o seu último filme para a Meca do Cinema: “A Sede do Mal” (Touch of Evil). Em 1957, ainda um filme, mas desta vez, para a televisão: “Don Quijote”: segundo alguns, não a mais importante, mas uma das mais wellesianas de todas as suas obras, de que se conhece apenas uma versão montada por Jesus Franco, para a Expo 92 de Sevilha.
Em 1962, realiza na Europa (França e Jugoslávia) “O Processo”, uma adaptação de Franz Kafka. Em 1966, segundo diversas obras de William Shakespeare, dirige “Falstaff” (As Badaladas da Meia Noite), a que se segue, em 1969 “História Imortal” (The Immortal Story), um filme misterioso e poético, de cerca de sessenta minutos, que tem (supostamente) Macau como cenário (foi rodado em Espanha). As suas derradeiras obras no cinema são “F for Fake”, sobre falsários de arte, e “Filming Othelo”, onde explica a conturbada rodagem do seu admirável “Othelo”.
Ao longo da sua carreira, interpretou dezenas de filmes, onde deixou igualmente o peso da sua personalidade e a força do seu génio, mas muitos deles não tinham grande qualidade nem o mereciam. Fazia-o para conseguir viver e financiar os seus projectos mais pessoais. Morreu a 9 de Outubro de 1985, deixando atrás de si uma lenda imorredoura, um legado disperso, incompleto e por vezes contraditório, que o apontam como um dos verdadeiros génios que o cinema conheceu no seu primeiro centenário de existência.

Filmografia
1. Como realizador
Para cinema
1934: Hearts of Age, de Orson Welles e William Vance (EUA)
1940-41: Citizen Kane (O Mundo a Seus Pés) (EUA)
1942: The Magnificent Ambersons (O Quarto Mandamento) (EUA)
1942: Journey Into Fear (A Jornada do Medo), de Norman Foster (EUA) (Orson Welles trabalhou neste filme enquanto preparava “The Magnificent Ambersons” e “It's All True”. Embora “Journey into Fear” não esteja assinado por ele, costuma figurar na sua filmografia).
1942: It's All True (trinta mil metros deste filme foram rodados em 1941-1942 por Orson Welles, na América do Sul: episódios do samba, dos jangadeiros no Brasil e episódio sobre as corrida de touros no México, segundo um texto Robert Flaherty. O projecto manteve-se inacabado, mas recentemente foi recuperado e mostrado como Orson Welles pensaria montá-lo).
1946: The Stranger (O Estrangeiro) (EUA)
1947: The Lady from Shanghai (A Dama de Xangai) (EUA)
1947: Macbeth (Macbeth) (EUA)
1949: Black Magic / Cagliostro, de Gregory Ratoff (participação de Orson Welles não creditada)
1952: Othello / The Tragedy of Othello: The Moor of Venice (Othello) (Itália, França, Marrocos)
1953: O Mercador de Veneza (primeiros ensaios para a “segunda cadeia”)
1954: O Rei Lear (CBS, New York) (Produção Peter Brook)
1955: Mr. Arkadin / Confidential Report (Relatório Confidêncial) (Espanha / Inglaterra / França / Suíça)
1955: Don Quixote (Don Quixote) (Espanha, México)
1955: The Orson Welles Sketchbook (TV)
1955: Around the World with Orson Welles (The Basque Country – Espanha: The Bullfight: Paris After Dark: Pelota Basca: Revisiting Viena: London: Saint-Germain-de-Prés e L'Affaire Dominici (inacabado))(TV)
1955: Moby Dick Rehearsal (inacabado) (TV)
1956: Orson Welles and People (TV)
1956: The Fountain of Youth (TV)
1956: Twentieth Century (CBS, New York)
1956: Lucy Meet Orson (CBS)
1957: Touch of Evil (A Sede do Mal) (EUA)
1957: The Marchant of Venice, Macbeth, Othello e King Lear (versões abreviadas para a CBS) (TV)
1957: The Fall of the City (TV)
1958: The Fountain of Young (TV)
1958: Portrait of Gina (TV)
1960: An Arabian Night (ATV) (TV)
1961: Orson Welles on the Art of Bullfighting (ABC) (TV)
1961: Viaggio nel Paese di Don Chisciotte (RAI) (TV)
1962: The Trial (O Processo) (França, Itália, RFA)
1963: Wide World of Entertainment (ABC) (TV)
1965: Miss Goodall and the Wild Chimpanzees (BBC) (TV)
1966: Campanadas a Medianoche / Chimes at Midnight / Falstaff (As Badaladas da Meia Noite) (Espanha, Suiça)
1967: Ten Days that Shock the World (ATV) (TV)
1967: Dean Martin Show (NBC) (TV)
1968: The Immortal Story / Histoire Immortelle (História Imortal)
1968: Around the World with Mike Todd (ABC) (TV)
1969: Around the World with Orson Welles (ABC) (TV)
1969: How Science Fiction Viewed the Moon (CBS) (TV)
1969: Thee Name of the Game (NBC) (TV)
1969: Rowen and Martins Laughin (NBC) (TV)
1969: The Silent Years (WNET/PBS) (TV)
1969: ABC Comedy Hour (ABC) (TV)
1969: The Southern Star (cenas iniciais, não creditado no genérico)
1967/70: The Deep /Dead Reckoning (Jugoslávia)
1970/75: The Other Side of the Wind (França, Irão) (projecto inacabado)
1971: Orson Welles Bag (CBS) (TV)
1971: Americans on Everest (NBC) (TV)
1972: Last of the Wild Mustangs (ABC) (TV)
1972: The Man who Came to Dinner (NBC)
1972: Orson Welles Great Mysteries (GB).
1973: The Marty Feldman Comedy Machine (ABC) (TV)
1975: F For Fake / Vérités et Mensonges (França, Irão)
1976: It Happened One Christmas (Thames) (TV)
1978: The Movie Moguls (TV)
1979: Magic with the Stars (NBC) (TV)
1979: Filming Othello (RFAlemanha)
1979: The Orson Welles Show (TV, série sob o pseudónimo de G.O.Spelvin)
1980: The Magic of David Copperfield (CBS) (TV)
1981: Special Magic (TV)
1992: Don Quixote / Don Quijote de Orson Welles (versão montada postumamente), de Orson Welles e Jesús Franco (Espanha)
1993: It's All True, de Bill Krohn, Myron Meisel, Orson Welles, Richard Wilson (EUA, 1942- 1993) (versão montada postumamente)

2. Como intérprete
1934: THE HEARTS OF AGE, de Orson Welles e William Vance
1941: CITIZEN KANE (O Mundo a Seus Pés), de Orson Welles (como Charles Foster Kane)
1942: JOURNEY INTO FEAR (A Jornada do Medo), de Norman Foster (e Orson Welles) (como Coronel Haki)
1942: THE MAGNIFICENT AMBERSONS (O Quarto Mandamento), de Orson Welles
1944: FOLLOW THE BOYS (Parada da Alegria), de Edward Sutherland (como O.W.)
1944: JANE EYRE (A Paixão de Jane Eyre), de Robert Stevenson (como Edward Rochester)          
1946: DUEL IN THE SUN (Duelo ao Sol), de King Vidor (Narrador)
1946: THE STRANGER (O Criminoso), de Orson Welles (como Franz Kindler, aliás Charles Rankin)
1946: TOMORROW IS FOREVER (Amanhã Viveremos), de Irwin Pichel (como John Macdonald)
1948: THE LADY FROM SHANGHAI (A Dama de Xangai), de Orson Welles (como Michael O’Hara)
1948: MACBETH (Macbeth), de Orson Welles (como Macbeth)
1949: BLACK MAGIC / CAGLIOSTRO (Cagliostro), de Gregory Ratoff (co­mo Cagliostro)
1949: PRINCE OF FOXES (O Favorito dos Bórgias), de Henry King (como César Borgia)
1949: THE THIRD MAN (O Terceiro Homem), de Carol Reed (como Harry Lime)
1950: THE BLACK ROSE (A Rosa Negra), de Henry Hathaway (como General Bayan)
1951: RETURN TO GLEUNASCAUL, de Hilton Edwards (curta metragem)
1952: OTHELLO (Othello), de Orson Welles (como Othello)
1952: RENT'S LAST CASE (O Último Caso de Trent), Herbert Wilcox; (como Sigsbee Manderson)
1953:  ROYAL AFFAIRS IN VERSAILLES / SI VERSAILLES M'ETAIT CONTÉ / AFFAIRS IN VERSAILLES (Se Versalhes Falasse...), de Sacha Guitry (como Benjamin Franklin).
1954: THREE CASES OF MURDER (Três Crimes), episódio de George More O' Ferrall (como Lord Mountdrago)
1954: NAPOLEON (Napoleão), de Abel Gance (como Hudson Lowe).
1955: DON QUIXOTE/DON KIKHOT, de Orson Welles (narrador)
1955: MR. ARKADIN/CONFIDENTIAL REPORT (Relatório Confidencial), de Orson Welles (como Gregory Arkadin)
1955: TOUBLE IN THE SAHDOW, de Herbert Wilcox (como Sanin Cejador y Mengues)
1956: MOBY DICK (Moby Dick), de John Huston (como Padre Mapple)
1957: MAN IN THE SHADOW (O Salário do Diabo), de Jack Arnold (como Virgil Renkler).
1957: TOUCH OF EVIL (A Sede do Mal), de Orson Welles (como Hank Quinlan).
1958: THE LONG HOT SUMMER (Paixões que Escaldam), de Martin Ritt (como Varner)
1958: THE ROOTS OF HEAVEN (As Raizes do Céu), de John Huston (como Cy Sedgwick)
1958: SOUTH SEAS ADVENTURE (Aventuras nos Mares do Sul), de C. Dubley, F. D. Lyon, W. Thompson, B. Wrangel, R. Goldstone (Narrador)
1958: THE VIKINGS (Os Vikings), de Richard Fleischer (Narrador)
1959: COMPULSION (O Génio do Mal), de Richard Fleischer (como Jonathan Wilk);         
1959: HIGH JOURNEY, de Peter Bayliss (Narrador)
1960: THE BATTLE OF AUSTERLITZ (Austerlitz), de Abel Gance (como Fulton)
1960: CRACK IN THE MIRROR (Drama Num Espelho), de Richard Fleicher (como Hagolin e Lamorciêre)
1961: DAVID AND GOLIATH (David e Golias), de Richard Pottier e Ferdinandi Baldi (como Saul)
1961: FERRY TO HONG KONG (Passagem Para Hong-Kong), de Lewis Gilbert (como Capitan Hart).
1961: KING OF KINGS (O Rei dos Reis), de Nicholas Ray 
1962: LA FAYETTE (La Fayette), de Jean Dreville (como Benjamin Franlin)
1962: ROGOPAG (Rogopag), R. Rossellini, J.-L. Godard, P.P. Pasolini e U. Gregoreti (como ralizador, no episódio de P. P. Pasolini)
1962: THE TARTARS / I TARTARI (Os Tártaros), de Richard Thorpe (como Burun­dai);
1962: THE TRAIL (O Processo), de Orson Welles (como Hastler)
1963: THE V.I.P.S (Hotel Internacional), de Anthony Asquith (como Max Buda)
1964: THE FINEST HOURS, de Peter Bayliss (Narrador)
1965: A KING'S STORY, de Harry Booth (Narrador)
1965: MARCO, THE MAGNIFICENT /LA FABULEUSE AVENTURE DE MARCO POLO (A Grande Aventura de Marco Polo), de Denys de la Pattellière e Noel Howard (como Acerman)
1966: CHIMES AT MIDNIGHT / FALSTAFF (As Badaladas da Meia Noite), de Orson Welles (como Falstaff)
1966: IS PARIS BURNING? / PARIS BRULE-T-IL? (Paris Já Está a Arder?), de René Clément (como Consulo Raoul Nordling)
1966: A MAN FOR ALL SEASONS (Um Homem para a Eternidade), de Fred Zinneman (como Cardeal Wolsey)
1966: PORTRAIT D' ORSON WELLES, de François Reichenbach (como O.W.)
1967: CASINO ROYALE (Casino Royal), de K. Hughes, V. Guest, J. Huston, R. Parrish e J. McGrath (como Le Chiffre)
1967: I'LL NEVER FORGET WHAT'S 'IS NAME (O Falhado), de Michael Winner (como Jonathan Lute)
1967: THE SAILOR FROM GIBRALTAR, de Tony Richardson; (como Como Luis de Moçambique)
1968: THE IMMORTAL STORY/HISTOIRE IMMORTELLE (História Imortal), de Orson Welles (como Mr. Clay)
1968: THE LAST ROMAN, de John Guillermin (como Imperador Justiniano)
1968: OEDIPUS THE KING, de Philip Saville (como Tiresias)
1969: HOUSE OF CARDS (A Sombra de Um Homem), de John Guillermin (como Chrales Leschenhaut)
1969: THE SOUTHERN STAR (A Estrela do Sul), de S. Hayers (como Planett)
1969: MIHAI VITEAZU, de Sergiu Nikolaescu
1969: TEPEPA (Tepepa), de Giulio Petroni e Luciano Lucignani (como Plankett)
1970: CATCH-22 (Artigo 22), de Mike Nichols (como General Dreedle)
1970: THE KREMLIN LETTER (A Carta do Kremlin), de John Huston (como Alesei Bresnavitch)
1970: START THE REVOLUTION WITHOUT ME (Comecem a Combater sem Mim), de Bud Yorkin (como O.W.)
1970: THE THIRTEEN CHAIRS, de Nicholas Gessner (como Markau)
1970: UPON THIS ROCK, de Harry Rasky (como Michelangelo)
1971: THE BATTLE OF NERETVA / BITKA NA NERETVI (A Batalha de Neretvi), de Velko Bulajic (como Senador)
1971: A SAFE PLACE, de Henry Jaglom (como Mago)
1971: WATERLOO (Waterloo), de Serghei Bondarchuk (como Luis XVIII)
1971: MALPERTUIS (Malpertuis), de Harry Kumel (como Cassave)
1971: TO KILL A STRANGER, de Peter Collinson
1972: GET TO KNOW YOUR RABBIT, de Brian De Palma (como Dalessandro)
1972: NECROMANCY / THE WITCHING / ROSEMARY'S DISCIPLES, de Bert Gordon;
1972: LA DÉCADE PRODIGIEUSE (A Década Prodigiosa), de Claude Chabrol (como Theo Van Horn)
1972: THE CRUCIFICTION, de Robert Guenette (Narrador)
1972: TREASURE ISLAND (A Ilha do Tesouro), de John Hough e Andrea Bianchi (como John Silver)
1972: SUTJEKA, de Stipe Delic (como Winston Churchill)
1972: FUTURE SHOCK, de Alex Grasshoff (como O.W.)
1972: F FOR FAKE, de Orson Welles (como O. W.)
1975: BUGS BUNNY SUPERSTAR, de Larry Jackson (narrador)   
1975: TEN LITTLE INDIANS / AND THEN THERE WERE NONE, de Peter Collinson
1975: THE CHALLENGE OF GREATNESS, de Herbert Line (narrador)
1976: VOYAGE OF THE DAMNED (A Viagem dos Malditos), de Stuart Rosenberg (como Raul Estevez)
1977: IT HAPPENED ON CHRISTMAS, de Donald Wrye
1978: FILMING OTHELLO, de Orson Welles (como O.W.)
1978: HOT TOMMORROWS, de Martin Brest (narrador)
1979: NEVER TRUST AN HONEST THIEF, de Gerge McCowan
1979: NIKOLE TESLE, de Krsto Papic (como Yug)
1979: THE DOUBLE MCGUFFIN  , de Joe Camp
1979: THE LATE GREAT PLANET EARTH, de Robert Amram (narrador)
1979: THE SHAH OF IRAN, de Walter Ellaby (narrador)
1979: THE MUPPET MOVIE, de James Frawley (como J.P.Morgan)
1980: SHOGUN (Shogun, o Senhor da Guerra), de Jerry London
1981: BUTTERFLY, de Matt Cimber (como Juiz) 
1981: HISTORY OF THE WORLD: PART 1, de Mel Brooks (narrador)
1981: THE MAN WHO SAW TOMMORROW, de Robert Guenette (narrador)
1982: ORSON WELLES À LA CINÉMATHÈQUE, de Pierre André Boutang (como O.W.)

1984: WHERE IS PARSIFAL?, de Henri Helman