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domingo, 27 de abril de 2014

SESSÃO 31: 12 DE MAIO DE 2014



JOHNNY GUITAR (1954)
“Johnny Guitar” é um dos meus westerns preferidos, e posso confessar também que o western é um género de minha particular estima. Estamos, portanto, num território sagrado para uma grande maioria de cinéfilos.
"Play guitar, play guitar..., nunca houve um homem como Jonhny, como aquele a quem chamam Guitar”. Esta é uma das frases finais da canção que serve de fundo musical às derradeiras imagens de “Johnny Guitar”, um western de Nicholas Ray, dirigido em 1953. Glosando o tema, poderia dizer-se que nunca houve um western como este (de um cineasta de quem Jean Luc Godard, nos seus bons velhos tempos, dizia "O cinema é Nicholas Ray").
“Johnny Guitar” é, antes de ser tudo o mais, um vibrante poema de amor, de um lirismo violento e brutal. Um poema que atravessa os terrenos da tragédia e aí se purifica numa catarse radical que tem o fogo e a água como elementos redentores. “Johnny Guitar” é, aliás, uma obra que repousa no jogo dialéctico dos elementos e das cores. Um clima de ameaça estende-se ao longo de toda a película, a que o "trucolor" da "Republic Pictures" dá forma real e contornos definidos. Oscilando entre o vermelho-castanho e o azul-cinza-negro, “Johnny Guitar” é, subitamente, marcado pela aparição de um branco purificador, nessa sequência admirável em que Joan Crawford espera a chegada dos vigilantes tocando piano num "saloon" deserto. Mercedes MacCambridge, na fabulosa composição da puritana e frustrada Emma, invade então o terreno sagrado, violando com uma seta de negros presságios esse espaço de liberdade e amor. Nessa altura, a ameaça não são só as cores dos fatos que envolvem os homens, mas a própria coreografia das marcações que cria aves de rapina e carrascos prontos a desferir o golpe decisivo nas vítimas indefesas.
Realizado em 1953, na América, “Johnny Guitar” conta com um argumento admirável de um especialista do género, Philp Yordan, que adapta o que nos dizem ser um romance medíocre. Obra excepcionalmente trabalhada, “Johnny Guitar” é ainda uma tomada de posição frente a questões de natureza social e política que dominaram os EUA nos inícios da década de 50. Nessa perspectiva, os linchamentos de Turkey e Vienna adquirem significados precisos, bem assim como todo o cruel interrogatório de Turkey, pouco depois de ser descoberto moribundo. Os métodos revelam-se subitamente actuais. Por ali passava a sombra de MacCarthy, senador da "caça às bruxas".
Johnny Guitar regressa a Vienna cinco anos depois de ter partido. Havia-a conhecido num "saloon", vem encontrá-la noutro. Com a diferença de que este é dela. Cada pedra dessa construção barroca tem um significado profundo para essa mulher que conheceu da vida o melhor e pior. Quando Johnny e Vienna se reencontram, procuram enterrar o passado. As perguntas que se esboçam ficam sem resposta, num dos mais fulgurantes e míticos diálogos de toda a história do cinema. Mas o passado vai ressuscitando pouco a pouco. Johnny Guitar voltará a ser Johnny Logan, depois de ter retomado o revólver e esquecido a guitarra no "saloon" envolto em chamas.
Os heróis de Ray são homens cansados e vividos que, no entanto, acreditam ainda nos ideais de juventude, que procuram no amor uma razão de ser e de agir. O amor, em “Johnny Guitar”, ocupa um lugar destacado sobretudo no que se refere às relações entre Johnny e Vienna, que se concretizam num misto de atracção-desejo e protecção maternal (da parte de Vienna) ou protecção física, fase às ameaças exteriores (da parte de Johnny Logan).
"O que funda o western é, não o herói ou o aventureiro, mas um certo acordo realizado entre o mundo, natural e social, e o homem,"disse Bernard  Dort numa obra dedicada ao western. É em busca dessa ordem perdida que Johnny Guitar intervém. Numa das sequências iniciais, um copo de uísque entornado roda sobre si próprio, até quase cair do balcão. Johnny Guitar irá impedir a queda no segundo preciso. Da mesma maneira, será Guitar que, algum tempo depois, salvará Vienna da corda que lhe enrolaram ao pescoço.
Johnny Guitar é o homem que vem de longe para reequilibrar as situações, suspendendo movimentos em situações de perigo. Ele é o homem que procura a felicidade perdida, o equilíbrio inicial, esse estado de graça em que, para um homem se sentir verdadeiramente homem, lhe bastam "uma chávena de café e um bom cigarro." Mas, curiosamente, este é um western onde são duas mulheres que detêm os elementos essenciais do confronto, aquelas entre quem se estabelecem as grandes linhas de tensão. Na verdade, é entre Vienna e Emma que tudo se joga, entre o futuro de uma região e o seu passado, entre o progresso e a estagnação, entre a tolerância e o fanatismo, entre o desejo satisfeito e o desejo frustrado. Entre o Amor e o Ódio.
Contrariando quase todas as regras do género (em lugar dos grandes espaços abertos, este é um western que se encerra deliberadamente em interiores, sendo simultaneamente uma obra onde a palavra adquire uma importância decisiva), “Johnny Guitar” é, apesar disso, ou por causa disso, um dos mais espantosos e fulgurantes westerns de toda a sua história. Seguramente também um dos mais belos diálogos escritos para cinema, em toda a sua historia. E Nicholas Ray, certamente, um dos mais extraordinários cineastas norte-americanos.

JOHNNY GUITAR
Título original: Johnny Guitar
Realização: Nicholas Ray (EUA, 1954); Argumento: Philip Yordan, Ben Maddow, Nicholas Ray, segundo romance de Roy Chanslor; Produção: Herbert J. Yates e Nicholas Ray; Música: Victor Young; Fotografia (cor): Harry Stradling Sr.; Montagem: Richard L. Van Enger; Direcção artística: James W. Sullivan; Decoração: Edward G. Boyle, John McCarthy Jr.; Guarda-roupa: Sheila O'Brien; Maquilhagem: Peggy Gray, Bob Mark; Assistentes de realização: Herbert E. Mendelson; Som: T.A. Carman, Howard Wilson; Efeitos especiais: Howard Lydecken, Theodore Lydecker; Companhias de produção: Republic Pictures; Intérpretes: Joan Crawford (Vienna), Sterling Hayden (Johnny 'Guitar' Logan), Mercedes McCambridge (Emma Small), Scott Brady (Dancin' Kid), Ward Bond (John McIvers), Ben Cooper (Turkey Ralston), Ernest Borgnine (Bart Lonergan), John Carradine (Old Tom), Royal Dano, Frank Ferguson, Paul Fix, Rhys Williams, Ian MacDonald, etc. Duração: 110 minutos; Distribuição em Portugal: Cine Digital (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 28 de Janeiro de 1955.

NICHOLAS RAY (1911 – 1979)
Raymond Nicholas Kienzle, nome de baptismo de Nicholas Ray, nasceu em Galesville, Wisconsin, EUA, a 7 de Agosto de 1911, e viria a falecer em Nova Iorque, a 16 de Junho de 1979. Estudou arquitectura, tendo contactado com Frank Lloyd Wright. Foi actor de teatro, aluno de Elia Kazan e John Houseman, participou em espectáculos itinerantes e depois integrou elencos da Broadway. Em 1938 interessou-se pelo folclore americano. Escreveu e produziu um programa radiofónico, “Back Where I Came From”. De 1942 a 1948 foi encenador teatral na Broadway. Começou a carreira cinematográfica como assistente de realização de Elia Kazan, em “A Tree Grows in Brooklyn”.
O seu cinema deu sempre especial atenção a marginais e heróis frágeis em confronto com uma sociedade onde dificilmente se integram, o que é tão visível na figura de Cristo como na de alguns fora-da-lei ou jovens em revolta. Esta fragilidade é posta em contacto com situações de grade violência psicológica e física, onde acabam normalmente por ser trucidados. Apenas o amor, arrebatado e infinito, os pode salvar, mesmo que metaforicamente. Éric Rohmer, então crítico da revista “Cahiers du Cinema”, considerou-o “o mais importante cineasta do pós-guerra” e Jean-Luc Godard acreditava ser Ray a expressão pura do cinema.
Após o falhanço de “55 Days at Peking” abandonou o cinema comercial, dedicou-se ao ensino em universidades e em palestras, até se retirar quando soube que tinha um cancro. Mas Wim Wenders, que muito o admirava, convidou-o para interpretar um papel em “O Amigo Americano”, de 1977, e co-dirigiu com ele o documentário “Lightning Over Water”, sobre os últimos momentos de Nicholas Ray na sua luta contra o cancro. Foi cremado e suas cinzas foram enterradas no jazigo de sua mãe.
Nicholas Ray foi casado com Jean Evans (1930 – 1940), Gloria Grahame, (1948 – 1952), Betty Utey, e  Susan Ray (1969 – 1979). Em 1960, Gloria Grahame, ex-mulher de Nicholas Ray, casou-se com Anthony Ray, filho do realizador, e seu ex-enteado, o que provocou grande escândalo em Hollywood.

Filmografia
1945: A Tree Grows in Brooklyn (Laços Humanos), de Elia Kazan (assistente de realização)           
1949: They Live By Night (Os Filhos da Noite)
1949: A Woman's Secret (O Segredo Íntimo de uma Mulher)
1949: Knock on Any Door (O Crime não Compensa)   
1949: Ódios Eternos (não creditado)
1950: Born To Be Bad (A Deusa do Mal)         
1950: In a Lonely Place (Matar ou não Matar)
1951: Flying Leathernecks (Inferno nas Alturas)      
1951: On Dangerous Ground (Cega Paixão)
1951: Suborno (não creditado)
1952: The Lusty Men (Idílio Selvagem)          
1952: Androcles and the Lion (não creditado)
1952: Macau (Macau) (não creditado)
1954: Johnny Guitar (Johnny Guitar)
1954: General Electric Theater (TV series) episódio “The High Green Wall”
1955: Rebel Without a Cause (Fúria de Viver)
1950: Run For Cover (O Fugitivo)      
1956: Bigger Than Life (Atrás do Espelho)    
1950: Hot Blood (Sangue Cigano)       
1957: Bitter Victory/Amere Victoire (Cruel Vitória)  
1950: The True Story Of Jesse James (A Justiça de Jesse James)
1958: Party Girl (A Rapariga Daquela noite)  
1950: Wind Across The Everglades (A Floresta Interdita)     
1959: On Trial (série de TV) episódio High Green Wall
1959: The Savage Innocents (Sombras Brancas)
1961: King of Kings (Rei dos Reis)
1963: 55 Days at Peking (55 Dias de Pequim)           
1964: Circus World (O Mundo do Circo), de Henry Hathaway (co-argumentista)
1974: I'm a Stranger Here Myself      
1974: Wet Dreams (Sonhos Húmidos), de Lasse Braun, Max Fischer, Oscar Gigard, Hans Kanters, Geert Koolman, Lee Kraft, Dusan Makavejev, Nicholas Ray (episódio "The Janitor"), Jens Jørgen Thorsen e Heathcote Williams
1976: We Can't Go Home Again
1977: Der Amerikanische Freund (O Amigo Americano), de Wim Wenders (só actor)
1978: Marco (curta-metragem)
1979: Hair (Hair) de Milos Forman (só actor)
1980: Lightning Over Water ou Nick's Movie - Um Acto de Amor, de Wim Wenders e Nicholas Ray (também actor)  
1982: Crystal Gazing (só actor)

JOAN CRAWFORD (1905-1977)
De seu verdadeiro nome Lucille Fay LeSueur, Joan Crawford nasceu a 23 de Março de 1905, em San Antonio, Texas, EUA, e faleceu a 10 de Maio de 1977, com 72 anos, em Nova Iorque, NY, EUA. Teve uma infância difícil e uma vida esmaltada de casos e escândalos. Cedo se tornou dançarina, o que lhe garantia a sobrevivência. Trabalhava num bar, dirigido por Henry Richman, quando conheceu Nils Granlund, um dos amantes da actriz Clara Bow. Como precisava de andar bem vestida, conta-se, Granlund facultou-lhe o dinheiro para ela comprar a roupa necessária, e, quando Lucille foi ao seu escritório para passar o modelo, e se encontrava despida a prová-lo, entrou, sem bater à porta, Marcos Loew, da MGM, que gostou tanto do que viu que a contratou por cinco anos para a Metro Goldwyn Mayer. Assinou contrato em 1925 e estreou-se no cinema em “Pretty Ladies”, ainda na época do cinema mudo. Lucille Fay LeSueur aprendeu rapidamente a subir na vida, e como o fazer, o que era uma quase norma na Holywood de então. Lá foi demonstrando o seu talento de responsável em responsável. Mas o nome não agradava e havia que mudá-lo. A revista “Movie Weekly” organizou um concurso e a proposta vencedora foi a que Lucille adoptou, Joan Crawford.
Nomeada por três vezes para o Oscar de Melhor Actriz: em 1945, por “Mildred Pierce” (Alma em Suplício), de Michael Curtiz, que venceu, em 1947, por “Possessed” (Loucura de Amor), de Curtis Bernhardt, e, em 1952, por Sudden Fear (Medo Súbito), de David Miller. Uma das suas coras de glória é “Johnny Guitar”, mas, curiosamente, um dos seus filmes mais queridos, que se tornou um cult movie, é “What Ever Happened to Baby Jane?” (Que Teria Acontecido a Baby Jane?), de Robert Aldrich, de 1962, quando já nela nada refulgia como nos seus tempos de juventude, e se encontrava, mais um vez, em confronto, desta feita directo, com a sua rival de sempre, Bette Davis.
Foi casada quatro vezes. Com os actores Douglas Fairbanks Jr., Franchot Tone e Philip Terry e, o quarto casamento, com o empresário Alfred Steele, o maior accionista da Pepsi Cola, de quem ficou viúva em 1959, herdando o cargo de presidente do conselho da empresa. Não teve filhos mas adoptou quatro crianças: Christina, Christopher e as gémeas Cynthia "Cindy" e Cathy. No seu testamento, escrito pouco tempo antes de sua morte, Joan Crawford deserdou os seus dois filhos mais velhos, Christina e Christopher, legando uma parcela ínfima da sua fortuna, avaliada em cerca de dois milhões de dólares, aos outros dois. Morreu em 1977 e encontra-se sepultada no Ferncliff Cemetery, Hartsdale, Condado de Westchester, Nova Iorque, EUA.
Após a morte, a sua filha mais velha, Christina Crawford, publicou “Mommie Dearest”, um livro autobiográfico que se tornou rapidamente “best-seller”, onde descrevia Joan como uma megera, alcoólica e péssima mãe, cujos filhos teria adoptado com fins apenas publicitários. O livro foi mais tarde adaptado ao cinema, com Faye Dunaway no papel de Crawford.

Filmografia:
Filmes mudos
1925: Pretty Ladies de Monta Bell (com o nome de Lucille Le Sueur)
1925: Lady of the Night (A Ave Nocturna), de de Monta Bell
1925: Proud Flesh (Orgulho Vencido), de King Vidor            
1925: A Slave of Fashion (A Escrava da Moda), de Hobart Henley
1925: The Merry Widow (A Viúva Alegre), de Erich von Stroheim    
1925: Pretty Ladies (A Mosca Negra), de Monta Bell 
1925: The Circle (A Eterna História), de Frank Borzage       
1925: The Midshipman (O Guarda-Marinha, de Christy Cabanne
1925: Old Clothes (O Trapeiro), de Edward F. Cline
1925: The Only Thing, de Jack Conway
1925: Sally, Irene and Mary (A Lindíssima Trindade), de Edmund Goulding 
1925: Ben-Hur: A Tale of the Christ, de Fred Niblo, e ainda Charles Brabin, Christy Cabanne, J.J. Cohn e Rex Ingram (não creditados)
1926: Tramp, Tramp, Tramp (Sempre a Andar), de Harry Edwards
1926: The Boob (Como se Faz um Herói), de William A. Wellman     
1926: Paris (Uma Aventura em Paris), de Edmund Goulding 
1927: Winners of the Wilderness (A Conquista da América), de W.S. Van Dyke
1927: The Taxi Dancer (Castelo de Cartas), de Harry F. Millarde     
1927: The Understanding Heart, de Jack Conway    
1927: The Unknown (O Homem Sem Braços), de Tod Browning        
1927: Twelve Miles Out (Fora da Lei Seca), de Jack Conway            
1927: Spring Fever (O Rei do Golf), de Edward Sedgwick     
1928: West Point (Cadete de West Point), de Edward Sedgwick      
1928: The Law of the Range, de William Nigh           
1928: Rose Marie (Rosa Maria), de Lucien Hubbard  
1928: Across to Singapore (Uma Noite em Singapura), de William Nigh       
1928: Four Walls (Prisão Redentora), de William Nigh
1928: Our Dancing Daughters (Meninas da Moda), de Harry Beaumont          
1928: Dream of Love (Sonho de Amor), de Fred Niblo          
1929: The Duke Steps Out (O Novo Campeão), de James Cruze       
1929: Tide of Empire, de Allan Dwan            
1929: Our Modern Maidens (Mocidade Ardente), de Jack Conway   

Filmes sonoros
1929: The Hollywood Revue of 1929, de Charles Reisner
1929: Untamed (Indómita), de Jack Conway
2930: Great Day, de Harry Beaumont
1930: Montana Moon (O Coração Manda), de Malcolm St. Clair         
1930: Our Blushing Brides (Três Destinos), de Malcolm St. Clair
1930: Paid (Dentro da Lei), de Sam Wood
1931: The Stolen Jools (curta-metragem)
1931: Dance, Fools, Dance (Virtudes Modernas), de Harry Beaumont          
1931: Laughing Sinners (Pecadores Alegres), de Harry Beaumont   
1931: This Modern Age (Esta Idade Moderna), de Nick Grinde         
1931: Possessed (Fascinação), de Clarence Brown   
1931: The Slippery Pearls, de William C. McGann (cameo)
1932: Grand Hotel (Grande Hotel), de Edmund Goulding
1932: Letty Lynton (Enfeitiçados), de Clarence Brown         
1932: Rain (Chuva), de Lewis Milestone        
1933: Today We Live (A Vida É o Dia de Hoje), de Howard Hawks    
1933: Dancing Lady (O Turbilhão da Dança), de Robert Z. Leonard
1934: Sadie McKee (Uma Mulher Que Venceu), de Clarence Brown
1934: Chained (Os Dois Amores de Diana), de Clarence Brown        
1934: Forsaking All Others (Os Noivos de Mary), de W.S. Van Dyke
1935: No More Ladies (Basta de Mulheres), de George Cukor e Edward H. Griffith
1935: I Live My Life (Quero Viver a Vida), de W.S. Van Dyke
1936: The Gorgeous Hussy (A Alegre Locandeira), de Clarence Brown
1936: Love on the Run (Doidos & Cª), de W.S. Van Dyke
1937: The Last of Mrs. Cheyney (A Última Conquista), de Richard Boleslawski        
1937: The Bride Wore Red (A Noiva de Vermelho), de Dorothy Arzner
1937: Mannequin (Manequim), de Frank Borzage     
1938: The Shining Hour (Tentação), de Frank Borzage        
1939: Ice Follies of 1939 (O Turbilhão de Gelo), de Reinhold Schünzel      
1939: The Women (Mulheres), de George Cukor
1940: Strange Cargo (Os Fugitivos da Guiana), de Frank Borzage
1940: Susan and God (As Teorias de Susana), de George Cukor       
1941: A Woman's Face (A Cicatriz do Mal), de George Cukor            
1941: When Ladies Meet (Quando Elas se Encontram), de Robert Z. Leonard          
1942: They All Kissed the Bride (Quem Manda sou Eu), de Alexander Hall  
1942: Reunion in France (Encontro em França), de Jules Dassin     
1943: Above Suspicion (Insuspeitos), de Richard Thorpe     
1944: Hollywood Canteen (Sonho em Hollywood), de Delmer Daves 
1945: Mildred Pierce (Alma em Suplício), de Michael Curtiz
1946: Humoresque (Fascinação), de Jean Negulesco           
1947: Possessed (Loucura de Amor), de Curtis Bernhardt    
1947: Daisy Kenyon (Entre o Amor e o Pecado), de Otto Preminger 
1949: Flamingo Road (O Caminho da Redenção), de Michael Curtiz 
1949: It's a Great Feeling, de David Butler   
1950: The Damned Don't Cry!, de Vincent Sherman 
1950: Harriet Craig (A Última Mentira), de Vincent Sherman           
1951: Goodbye, My Fancy (Sonho Desfeito), de Vincent Sherman                
1952: This Woman is Dangerous (Esta Mulher é Perigosa), de Felix E. Feist
1952: Sudden Fear (Medo Súbito), de David Miller   
1953: Torch Song (Corpo Sem Alma), de Charles Walters     
1954: Johnny Guitar (Johnny Guitar), de Nicholas Ray         
1955: Female on the Beach (A Casa da Praia), de Joseph Pevney    
1955: Queen Bee (A Abelha Mestra), de Ranald MacDougall
1956: Autumn Leaves (Folhas de Outono), de Robert Aldrich          
1957: The Story of Esther Costello, de David Miller  
1959: The Best of Everything, de Jean Negulesco    
1962: What Ever Happened to Baby Jane? (Que Teria Acontecido a Baby Jane?), de Robert Aldrich
1963: The Caretakers (Mulheres Sem Destino), de Hall Bartlett      
1964: Della, de Robert Gist
1964: Strait-Jacket (Volúpia do Crime), de William Castle    
1964: Hush... Hush, Sweet Charlotte, de Robert Aldrich
1965: I Saw What You Did (O Telefone Fatal), de William Castle      
1967: The Karate Killers, de Barry Shear
1967: Berserk!, de Jim O'Connolly    
1970: Trog, de Freddie Francis
1971: Journey to Murder, de John Gibson e Gerry O'Hara

Televisão e documentários :
1953: The Revlon Mirror Theater - Série de TV (1 episódio)
1954: General Electric Theater – Série de TV (3 episódios) ´
1959: Woman on the Run - Teledramático
1959 - 1961: Zane Grey Theater - Série de TV (2 episódios)
1959: On Trial - Série de TV (1 episódio)
1961: The Foxes - Teledramático
1962: Your First Impression - Série de TV (1 episódio)
1962: Lykke og krone - Documentário
1963: Route 66 - Série de TV (1 episódio)
1964: The Big Parade of Comedy - Documentário
1967: The Man from U.N.C.L.E. - Série de TV (1 episódio)
1968: The Secret Storm - Série de TV (5 episódios)
1969: Journey to the Unknown - Teledramático
1969: Night Gallery - Teledramático
1970: The Virginian - Série de TV (1 episódio)
1971: The Name of the Game - Série de TV (1 episódio)
1972: Beyond the Water's Edge - Teledramático
1972: The Sixth Sense - Série de TV (1 episódio)
1972: Hollywood: The Dream Factory - Documentário TV
1974: That's Entertainement Part I, de Jack Haley Jr
1976: That's Entertainment, Part II, de Gene Kelly
1977: That's Action - Documentário
1984: Terror in the Aisles - Documentário
1985: That's Dancing ! - Documentário
1988: Going Hollywood: The War Years - Documentário
1995: Legends of Entertainment Video - Documentário TV
1995: The Casting Couch - Documentário TV
1997: Judy Garland's Hollywood - Documentário TV
1998: Warner Bros. 75th Anniversary: No Guts, No Glory - Documentário TV


SESSÃO 30: 5 DE MAIO DE 2014


 A JANELA INDISCRETA (1954)
“Janela Indiscreta”, rodado quase integralmente nos estúdios da Paramount, em Los Angeles, entre Novembro de 1953 e Janeiro de 1954, é indiscutivelmente uma das obras-primas de Alfred Hitchcock e igualmente um dos filmes mais fascinantes e interessantes sobre o que é o cinema. Muitos atacaram esta obra, por altura da sua estreia, acusando-a de voyeurismo. Nunca vi obra que o fosse mais, apesar de haver outras que o são tanto, mas calculo igualmente que muito raros são os filmes que não sejam voyeuristas, ou então não são cinema. O cinema, quase por definição, é observar os outros, através de uma objectiva. Olhá-los e registá-los em movimento. Se os olharmos e registarmos em plano fixo, a câmara é fotográfica e quem está por detrás dela é um fotógrafo. Em “Janela Indiscreta”, temos um pouco de tudo isso. Um fotógrafo que observa através da objectiva de uma máquina fotográfica, um cineasta que observa através de uma objectiva de câmara de filmar, e nós, espectadores de ambos, que assistimos a um registo através de uma janela que se abre no início da sessão e nos coloca na perspectiva de um ou dos dois anteriores voyeuristas. Este é um universo de voyeuristas, como nunca houve outro.
Porque se acusa alguém de ser voyeurista? Esta é uma questão essencial, que se deve colocar de início. Em termos de psicanálise, o termo é de entendimento complexo consoante as escolas que dele se abeiram desde Freud. Mas está sempre relacionado com uma prática de um indivíduo que gosta de ver outros, de forma mais ou menos escondida, retirando prazer, quase sempre de raiz sexual, libidinal, desse acto. Há quem aceite que o voyeurista necessita de um qualquer gesto de aquiescência do outro, do observado, há quem sustente o contrário, que é precisamente a ausência desse pacto que cria excitação no voyeur.
Parece-me uma definição muito redutora, levando sempre para um campo de patologia sexual, algo que pode ter outros significados. Olhar os outros, mesmo com alguma fixidez, pertence ao domínio do humano. O homem interessa-se normalmente pelo seu semelhante. Não é necessário existir um par nu num parque, ou no interior de um quarto, para justificar esse interesse. Neste caso, o voyeurista (se não está na presença de um exibicionista, o que faria que um ao outro se completassem harmoniosamente) incorreria num falta grave, imiscuindo-se na intimidade de outro, sem sua autorização. Seja ou não para satisfação sexual. O voyeurismo não é saudável, nem legalmente consentido, quando praticado por patologias sexuais, mas também não o é por paparazzis intrometidos, polícias que extravasam das suas competências, vigias abusadores, e tantas outras práticas culposas. Olhar o voyeurismo unicamente como desvio sexual parece-me, como já disse, redutor. 
O filme de Hitchcock, e outros, de alguns realizadores que depois dele abordaram a mesma questão, como Brian De Palma, em “Testemunha de Um Crime” (Body Double, 1984), ou Michael Haneke, em “Nada a Esconder” (Cache, 2005), para não citar senão os mais flagrantes, creio que aponta numa perspectiva mais ampla do que pode ser o voyeurismo.
Vejamos:
L. B. Jeffries, ou simplesmente Jeff (James Stewart), vive em Nova Iorque, mais precisamente num prédio de Greenwich Village, é fotógrafo profissional, teve um acidente em trabalho, partiu uma perna e encontra-se preso dentro do seu apartamento, com uma perna estendida e engessada. Recebe a visita da sua elegante noiva Lisa Carol Fremont (Grace Kelly) e, por vezes, a da sua empertigada e prestável empregada, Stella (Thelma Ritter). De resto, dorme, durante os dias e as noites quentes de verão, e, quando está acordado, vira a cadeira de rodas para a janela que dá para um pátio interno, rodeado de traseiras de outros edifícios residenciais. O que lhe permite olhar a vizinhança e entrar na privacidade compartilhada de alguns apartamentos com janelas abertas. Com a sua lente de grande alcance, vai acompanhando a bailarina que se exercita e toma o pequeno-almoço logo pela manhã, o casal de meia-idade que dorme de pijama nas escadas de serviço, a senhora que trata de uma gaiola com um passarinho, o pianista que se exercita em busca de inspiração, as festas dadas com algum burburinho, os recém-casados que deixam adivinhar uma actividade constante por detrás das cortinas corridas, e um outro casal de comportamento estranho, ela doente e agarrada a uma cama, ele entrando e saindo em suspeitas incursões. Jeff começa a desconfiar do senhor Lars Thorwald (Raymond Burr), depois do súbito desaparecimento da mulher, e resolve investigar, mesmo sem sair da sua janela. Com a colaboração de Lisa, de Stella e do tenente Thomas J. Doyle (Wendell Corey) tenta chegar à verdade. 
L. B. Jeffries é bisbilhoteiro, sim é. A janela da sua casa é o seu espectáculo, por força das circunstâncias. Mas não há em Jeff qualquer comportamento menos digno. Limita-se a olhar e a comentar com um sorriso ou um esgar. Aquele é um espectáculo idêntico ao de quem pára no meio da rua ou se senta num banco de jardim e se limita a ver passar quem se lhe atravessa à frente. Para Jeff, esse é o objecto do seu olhar. Para Hitch a sua câmara acompanha o espectáculo de Jeff olhando os outros. Para nós, espectadores, a cortina sobe logo no genérico, dando-se início à representação preparada para nós pelo mestre do suspense. Um olhar sobre um olhar sobre um olhar. A essência do cinema, que só existe enquanto tal, quando permanecem olhares de espectadores na sala escura. O olhar, enquanto tal, com o seu defeito que permite sobrepor imagens e imaginar o movimento (a persistência retiniana), é o objecto central desta “Janela Indiscreta”.
A tradução portuguesa de “Rear Window” ajuda a tornar mais ambígua a intenção da obra. “Rear” quer dizer traseira, “Rear Window” é simplesmente a “Janela Traseira”, sem qualquer carga de indiscrição.  
Mas olhar pode ser relancear a vista sobre algo ou “ver”, isto é, tentar interpretar o que se olha, aprofundar o significado do que se vê. Quando se vê um filme, um quadro, uma obra de arte, não se deve olhar só, mas “ver”, interrogar a realidade, interpretá-la, criticar as aparências, ir mais além. A um fotógrafo profissional, habituado a esse exercício diário, não se pode exigir indiferença. É o que faz quando suspeita de que o que vê não será apenas isso.
Portanto, voyeurismo sim, mas algo que nada tem de patológico, antes uma lição para o espectador distraído que deve ser mais exigente perante tudo o que lhe passa pela frente, quer seja um filme, um jornal de actualidades, um discurso oficial, uma promessa eleitoral. É essencial não ficar pela camada exterior, pelas aparências, e ir ao fundo das questões. Saber o porquê do que se vê.
Neste aspecto, “Rear Window” é mais um exercício brilhante de um dos grandes mestres do cinema, e uma lição sobre o próprio cinema. A forma como está construído é brilhante, profundamente cinematográfica, visual, expondo o essencial através da imagem e solicitando ao olhar do espectador uma constante atenção a cada pormenor para melhor entender a globalidade da obra. James Stewart é magistral, preso a uma cadeira, durante quase duas horas, e nuanceando a expressão à medida das necessidades, criando a inquietação através dos reflexos da realidade no seu olhar. Grace Kelly torna-se a diva inspiradora de Hitch apenas com este filme. Hitchcock teria encontrado a sua actriz para o resto da sua carreira, se Grace não tivesse encontrado o seu príncipe encantando. A sua beleza, elegância e talento explodem nesta obra de uma sensualidade contida, refreada, tal como o mestre do suspense gostava dela. O cenário é magnífico, a fotografia notável, a música envolvente, o resultado final uma obra-prima. 

A JANELA INDISCRETA
Título original: Rear Window
Realização: Alfred Hitchcock (EUA, 1954); Argumento: John Michael Hayes, segundo conto de Cornell Woolrich ("It Had to Be Murder"); Produção: James C. Katz, Alfred Hitchcock; Música: Franz Waxman; Fotografia (cor):Robert Burks; Montagem: George Tomasini; Direcção artística: J. McMillan Johnson, Hal Pereira; Decoração: Sam Comer, Ray Moyer; Maquilhagem:Wally Westmore; Direcção de produção: C.O. Erickson; Assistentes de realização: Herbert Coleman; Departamento de arte: Dorothea Holt, Gene Lauritzen; Som: John Cope, Harry Lindgren, Harry E. Snodgrass; Efeitos visuais: John P. Fulton, Irmin Roberts; Companhias de produção: Paramount Pictures, Patron Inc.; Intérpretes: James Stewart (L.B. 'Jeff' Jeffries), Grace Kelly (Lisa Carol Fremont), Wendell Corey (Det. Lt. Thomas J. Doyle), Thelma Ritter (Stella), Raymond Burr (Lars Thorwald), Judith Evelyn (Miss Lonelyhearts), Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Sara Berner, Frank Cady, Jesslyn Fax, Rand Harper, Irene Winston, Havis Davenport, Alfred Hitchcock (homem com relógio no apartamento do escritor de canções), etc. Duração: 112 minutos; Distribuição em Portugal: Universal (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 23 March 1955.

ALFRED HITCHCOCK
 (1899-1980)
Alfred Joseph Hitchcock nasceu a 13 de Agosto de 1899, em Leytonstone, Essex, Londres, segundo filho dos três que o casal William Hitchcock (1862–1914) e Emma Jane Hitchcock (Whelan de nome de nascimento: 1863–1942) deram à luz. O pai tinha um lugar de venda de frutas e hortaliças e uma forte convicção religiosa, católica e puritana, que o levou a enviar o filho para uma escola londrina, o St. Ignatius College, em Stamford Hill, de forte inspiração jesuíta, baseado nos ensinamentos de Inácio de Loyola.
Aos 14 anos, Hitchcock ficou órfão de pai, teve de abandonar a escola que frequentava e passou a cursar a London County Council School of Engineering and Navigation, em Poplar. Principia a trabalhar, o que faz na W. T. Henley Telegraph and Cable Company, como fabricante de cabos eléctricos, onde desenvolveu igualmente trabalhos em design gráfico de publicidade. Pouco depois começa a interessar-se por fotografia e cinema, e o seu primeiro trabalho nesta área é desenhar genéricos e intertítulos para filmes mudos. Em 1920 vamos encontrá-lo nos Islington Studios, uma sucursal de estúdios norte-americanos, da Famous Players-Lasky, e da sua sucessora inglesa, Gainsborough Pictures. Colabora numa série de obras de que, na actualidade, se desconhecem cópias. Sabem-se os títulos: “The Call of Youth”, “The Great Day”, “Appearances”, “The Mystery Road”, “The Princess of New York”, “Dangerous Lies” ou  “The Bonnie Brier Bush”, todos de 1921. De designer gráfico, passou rapidamente a director de arte, a assistente de realização, argumentista, e realizador. São deste período filmes como “The White Shadow”, “The Prude's Fall”, “The Passionate Adventure” ou “Die Prinzessin und der Geiger”, rodado na Alemanha, no Studio Babelsberg, em Potsdam, perto de Berlim, e dirigido por Graham Cutts. Na Alemanha, Hitchcock observa o labor de Fritz Lang, Pabst e Murnau, cineastas que o irão influenciar a partir daí. “Com Murnau, aprendi a contar uma história sem palavras.”
Entretanto, tem os seus escritores preferidos, desde a juventude, Dickens, Poe, Chesterton, Conan Doyle, Wilkie Collins, entre outros. Perde-se a frequentar museus. Detesta o escuro: “A escuridão representa o desconhecido e sempre preferi o que me era familiar. Uma pessoa nunca sabe o que pode estar à espreita na escuridão.”
O início da sua carreira como realizador parece ter sido difícil. Em 1921, por doença do director Hugh Croise, termina, de colaboração com Seymour Hicks, “Always Tell Your Wife”, uma curta-metragem, onde o seu nome não aparece creditado. Em 1922, inicia “Number 13”, que nunca terminou e de que, tudo indica, se terá perdido todo o material. Segue-se “The Pleasure Garden” (O Jardim do Prazer) cuja realização Michael Balcon, da Gainsborough Pictures, entrega a Hitchcock que o roda nos estúdios da UFA, na Alemanha, mas que se transforma num verdadeiro desastre comercial. Em 1926, o drama “The Mountain Eagle” (na América distribuído sob o título “Fear of God”, ao que tudo indica), filmado nos Alpes do Tirol, desapareceu de circulação. O primeiro grande sucesso de Hitchcock como director surge em 1926, com um filme de “suspense”, bem à sua maneira, com um falso culpado e tudo. É mais uma variação sobre o caso de Jack, o Estripador, adaptando um romance de Marie Belloc Lowndes. “The Lodger: A Story of the London Fog” foi o maior sucesso do cinema britânico em 1927 e assinala influências muito seguras do expressionismo alemão, que, aliás, irão perseguir o autor ao longo de toda a sua carreira. Esta será, igualmente, a primeira obra que conta com a sua rápida aparição física (num “cameo”), como figurante, efeito que se irá tornar obsessivamente uma das suas marcas. Para Hitch, este terá sido o seu primeiro filme verdadeiramente “hitchcockeano”.
No seu período inglês cimenta uma reputação que o faz chegar triunfalmente à América. O êxito de obras como “O Homem que Sabia Demasiado”, “Os 39 Degraus” ou “Desaparecida” chamaram a atenção dos grandes estúdios de Hollywood e Alfred Hitchcock, a convite do produtor David O. Selznick, parte para os EUA, em 1939. O primeiro filme rodado em território americano foi “Rebecca”, com o qual foi de imediato nomeado como melhor realizador e a obra melhor filme do ano, estatueta esta que viria a vencer. Os seus trabalhos seguintes confirmam-no como um dos maiores cineastas de sempre.
Casado com Alma Reville, sua companheira e colaboradora ao longo de toda a vida, em Setembro de 1940, a família compra um rancho perto de Scotts Valley nas Santa Cruz Mountains. Trata-se do Cornwall Ranch, que passará, a partir daí, a ser a residência oficial, quando não permanecem na sua casa de Bel Air. Hitchcock morre no dia 29 de Abril de 1980, de insuficiência renal, na sua casa de Bel Air, Los Angeles. Tinha 80 anos. O corpo foi cremado e as cinzas lançadas sobre o Oceano Pacífico. Quatro meses antes, recebera das mãos da Rainha Isabel II a comenda de Cavaleiro da Ordem do Império Britânico. Entretanto, em 1979, a AFI entregara-lhe o “Life Achievement Award” desse ano.
Afirmar Alfred Hitchcock como “o mestre do suspense” é dizer muito pouco. Ele foi-o incontestavelmente, mas ao analisar globalmente a sua obra não se deve ficar com a ideia de que Hitch era um mero realizador de divertimentos macabros que empolgaram as plateias de todo o mundo. Alfred Hitchcock foi um dos grandes autores da história do cinema, por muito que ele procurasse aligeirar a concepção e repetisse amiudadas vezes que “Não passa de um filme!”.
A sua filmografia é das que maior coerência ostenta em toda a história do cinema. Hitch era homem de convicções fortes, de obsessões firmes, de temática constante, de um rigor formal e estilístico que assombram. Ainda hoje, a maioria dos seus filmes não se deixou corromper por uma ruga, não envelheceu um minuto e mantém uma modernidade de olhar e de construção que espantam. Alfred Hitchcock abordou os assuntos do seu tema, mas interessou-se sobretudo pela condição humana. O que é eterno. Fê-lo, simultaneamente, com um entusiasmo e um distanciamento, um humor e uma profundidade, um realismo e uma intuição que o tornam impar. Foi contemporâneo do seu tempo sem se deixar aprisionar pelo imediatismo das questões.
Parece lenda, mas a família corrobora, inclusive a sua filha Patricia Hitchcock: quando era muito jovem, Alfred Hitchcock foi apanhado pelo pai numa qualquer traquinice que a severidade da educação católica não permitia. Como castigo, William Hitchcock escreveu um rápido recado num bilhete, meteu-o na mão do filho, e mandou-o levar a um polícia amigo, numa esquadra próxima. O recado dizia que o jovem devia ser enclausurado numa cela. Assim se fez e Alfred Hitchcock conheceu o terror, não mais de alguns minutos, é certo, mas o bastante para o marcar para a vida toda.
Em virtude da sua obra futura, quase poderíamos saudar o acontecimento, tanto mais que a sua vida privada não parece ter sido particularmente aterrorizada pela ocorrência. Mas todas as peripécias da sua juventude ter-se-ão vincado bem na obra que viria a construir. Também a mãe parece não ter sido branda nos castigos que impunha. Obrigava muitas vezes o jovem Hitch a ficar horas, de pé, ao lado da sua cama, como punição para qualquer pequena travessura. Obeso desde criança, Hitch sentia-se só e mal amado. O seu modelo de homem era Gary Grant, confessa anos mais tarde, mas o seu humor fazia-o ultrapassar os possíveis traumas. “O meu maior sonho era entrar numa loja de roupa de homem e comprar um fato já feito.” Terá transportado para os seus filmes todas estas experiências, numa espécie de exorcismo, ou de sublimação.

Filmografia:
Como realizador:
Período inglês
1922: Number 13 (não terminado, possivelmente perdido);
1923: Always Tell Your Wife  
1925: The Pleasure Garden (O Jardim do Prazer)
1926: The Mountain Eagle (A Águia da Montanha) 
1927: The Lodger, a Story of the London Fog (O Hóspede)
1927: Downhill (O Declive)  
1927: The Ring (O Anel)
1928: Easy Virtue (Virtude Fácil)
1928: The Farmer's Wife (A Mulher do Lavrador)
1928: Champagne (Champagne)
1929: The Manxman (Pobre Pete)
1929: Harmony Heaven (Céu Harmonioso)
1929: Blackmail (Chantagem)
1930: Elstree Calling (Elstree Chama) 
1930: An Elastic Affair
1930: Juno and the Paycock (Juno e Paycock)
1930: Murder! (Assassínio)
1931: The Skin Game (Jogo Fraudulento)
1931: Mary (Maria)
1932: Rich and Strange (Ricos e Estranhos)
1932: Number Seventeen (Número Dezassete)
1932: Lord Camber’s Ladies
1934: The Man Who Knew Too Much (O Homem Que Sabia Demasiado)
1933: Waltzes from Vienna (Valsas de Viena)
1935: The 39 Steps (Os 39 Degraus)
1936: Secret Agent (Os 4 Espiões)
1936: Sabotage (À 1 e 45)
1937: Young and Innocent (Jovem e Inocente)
1938: The Lady Vanishes (Desaparecida!)
1939: Jamaica Inn (A Pousada da Jamaica)

Período americano
1940: Rebecca (Rebecca)
1940: Foreign Correspondent (Correspondente de Guerra)
1941: Mr. & Mrs. Smith (O Sr. e Sra. Smith)
1941: Suspicion (Suspeita)
1942: Saboteur (Sabotagem)
1943: Shadow of a Doubt (Mentira)
1944: Aventure Malgache (Aventura Malgache)
1944: Bon Voyage (Boa Viagem) 
1944: Lifeboat (Um Barco e Nove Destinos)
1944: The Fighting Generation
1945: Watchtower Over Tomorrow  
1945: Spellbound (A Casa Encantada)
1946: Notorious (Difamação)
1947: The Paradine Case (O Caso Paradine)
1948: Rope (A Corda)
1949: Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio)
1950: Stage Fright (Pânico nos Bastidores)
1951: Strangers on a Train (O Desconhecido do Norte-Expresso)
1953: I Confess (Confesso!)
1954: Dial M for Murder (Chamada para a Morte)
1954: Rear Window (A Janela Indiscreta)
1955: To Catch a Thief (Ladrão de Casaca)
1955: The Trouble with Harry (O Terceiro Tiro)
1956: The Man Who Knew Too Much (O Homem Que Sabia Demais)
1956: The Wrong Man (O Falso Culpado)
1958: Vertigo (A Mulher Que Viveu Duas Vezes)
1959: North by Northwest (Intriga Internacional)
1960: Psycho (Psico)
1963: The Birds (Os Pássaros)
1964: Marnie (Marnie)
1966: Torn Curtain (Cortina Rasgada)
1969: Topaz (Topázio)
1972: Frenzy (Perigo na Noite)
1976: Family Plot (Intriga em Família)

Realizador e produtor de TV
1955-1962: Alfred Hitchcock Presents: 268 episódios, dos quais alguns dirigidos por si:
1955: "Revenge", "Breakdown", "The Case of Mr. Pelham".
1956: "Back for Christmas", "Wet Saturday", "Mr. Blanchard's Secret".
1957: "One More Mile to Go", “Four O’Clock”, "The Perfect Crime".
1958: "Lamb to the Slaughter", "Dip in the Pool", "Poison".
1959: "Banquo's Chair", "Arthur", "The Crystal Trench".
1960: “Incident at Corner”, "Mrs. Bixby and the Colonel's Coat".
1961: "The Horseplayer", "Bang! You're Dead", “I Saw The Whole Thing”.
1962-1965: The Alfred Hitchcock Hour: 92 episódios, tendo dirigido apenas 1 deles, "I Saw the Whole Thing" (1962).
1957: dirigiu o episódio "Four O'Clock" da série “Suspicion”.
1960: dirigiu o episódio "Incident at a Corner" da série “Startime”.

GRACE KELLY (1929 – 1982)
Grace Patricia Kelly nasceu a 12 de Novembro de 1929, em Filadélfia, Pensilvânia, EUA, e faleceu a 14 de Setembro de 1982, no Mónaco, vítima de um acidente de automóvel.
De ascendência irlandesa e alemã, era a segunda filha de Jack Kelly e Margaret Katherine Maier, o pai campeão olímpico de remo e a mãe treinadora desportiva. Grace Kelly desde muito nova demonstrou interesse pelo teatro, tendo actuado, ainda quando criança, em várias peças escolares. Estudou na Ravenhill Academy e na Stevens School, onde se graduou, ambas em Germantown, Pensilvânia. Mudou então para Nova Iorque para estudar teatro na Academia Americana de Artes Dramáticas. Tendo na família vários parentes que gostavam e praticavam artes cénicas, Grace foi por eles encorajada. Passou a viver no “Barbizon Hotel for Women”, um hotel de prestígio para mulheres endinheiradas, onde era impedida a entrada de homens depois das 22 horas, e começou a trabalhar como modelo para sustentar os estudos. A sua estreia nos palcos da Broadway foi em “The Father”, de August Strindberg. O produtor e realizador Delbert Mann, após ver Grace Kelly num dos vários episódios por si interpretados na TV, convida-a a integrar o elenco da produção televisiva “Bethel Merriday”, uma adaptação da obra de Sinclair Lewis, e depois para integrar o elenco do filme “Fourteen Hours”, de Henry Hathaway. Foi durante a rodagem desta obra que Gary Cooper a notou, afirmando que ela era "diferente de todas as actrizes que ele via com frequência”. Pouco depois recebia um convite de Stanley Kramer, que lhe ofereceu o papel principal do filme “High Noon”, de Fred Zinnemann. O filme trouxe-lhe um contrato de oito anos com a MGM. Em 1953, foi convidada por John Ford para integrar o elenco de “Mogambo”, dado que Gene Tierney desistira do papel. Grace Kelly recebeu um Globo de Ouro na categoria Melhor Actriz Secundária, e uma nomeação ao Oscar na mesma categoria. Em 1954, Alfred Hitchcock chama-a para “Dial M for Murder”, a que se seguem “Rear Window” e “To Catch a Thief”. Grace ficou conhecida como a “Musa de Hitchcock”. Com “The Country Girl”, de George Seaton, ganha o Oscar, e até 1956, data em que abandona o cinema, ainda interpreta “Green Fire”, de Andrew Marton, “The Bridges at Toko-Ri”, de Mark Robson, “The Swan”, de Charles Vidor e “High Society”, de Charles Walters.             Pouco depois, casa com o Príncipe Rainier do Monaco, tornando-se assim princesa, muito badalada em revistas de jet set. Teve três filhos, Carolina, Alberto II e Estefânia. Morreu em 1982, num acidente de automóvel, com 52 anos de idade. Está sepultada na Catedral de São Nicolau, na cidade do Mónaco.

Filmografia:
1948-1954 Kraft Television Theatre (série de TV) – episódios “Old Lady Robbins”, “The Small House”, “The Cricket on the Hearth”, “Boy of Mine” e “The Thankful Heart”
1950: Somerset Maugham TV Theatre (série de TV) – um episódio
1950: The Clock (série de TV) – episódio “Vengeance”
1950: Big Town (série de TV) – episódio “The Pay-Off”
1950: Actor's Studio (série de TV) - episódios “The Swan”, “The Token”, “The Apple Tree” 
1950: Believe It or Not (série de TV) – episódio “The Voice of Obsession”
1950-1952 Studio One (série de TV) – episódios “The Kill”, “The Rockingham Tea Set”
1950-1952: Lights Out (série de TV) – episódios – “The Borgia Lamp” (1952)
“The Devil to Pay” (1950)
1950-1952: Danger (série de TV) – episódios – “Prelude to Death2 (1952)
“The Sergeant and the Doll” (1950)
1950-1953 The Philco Television Playhouse (série de TV) – episódios “The Way of the Eagle”, “Rich Boy”, “The Sisters”, “Leaf out of a Book”, “Ann Rutledge”, “Bethel Merriday”
1951: Fourteen Hours (14 Horas), de Henry Hathaway
1951: Nash Airflyte Theatre (série de TV) – episódio “A Kiss for Mr. Lincoln”
1951: The Prudential Family Playhouse (série de TV) - episódio “Berkeley Square” (1951)
1951-1952 Armstrong Circle Theatre (série de TV) – episódios “Recapture”, “City Editor”, “Brand from the Burning”, “Lover's Leap”
1952: High Noon (O Comboio Apitou Três Vezes), de Fred Zinnemann
1952: Goodyear Television Playhouse (série de TV) – episódio “Leaf Out of a Book”
1952: The Big Build Up (teledramático) – episódio “Don Quixote”
1952: Suspense (série de TV) – episódio “Fifty Beautiful Girls”
1952: Robert Montgomery Presents (série de TV) – episódio “Candles for Theresa”
1952-1953 Lux Video Theatre (série de TV) – episódios “The Betrayer”, “A Message for Janice”, “Life, Liberty and Orrin Dudley”
1953: Mogambo (Mogambo), de John Ford
1954: Dial M for Murder (Chamada para a Morte), de Alfred Hitchcock
1954: Rear Window (Janela Indiscreta), de Alfred Hitchcock
1954: The Country Girl (Para Sempre), de George Seaton   
1954: Green Fire (Tentação verde) de Andrew Marton
1954: The Bridges at Toko-Ri (As Pontes de Toko-Ri), de Mark Robson
1955: To Catch a Thief (1955 Ladrão de Casaca), de Alfred Hitchcock
1956: The Swan (O Cisne), de Charles Vidor
1956: High Society (Alta Sociedade), de Charles Walters