domingo, 29 de junho de 2014

SESSÃO 35: 7 DE JULHO DE 2014


    SANGUE NO DESERTO (1957)
Anthony Mann é, indiscutivelmente, um dos mestres do western norte-americano e, simultaneamente, um dos grandes cineastas deste país, sobretudo entre as décadas de 40 e 50. Detendo-nos apenas na sua contribuição para o western, as obras que assinou nos anos 50 do século XX bastam para o colocar na galeria dos maiores: “Winchester '73” (1950), “Bend of the River” (1952), “The Naked Spur” (1953), “The Far Country” e “The Man from Laramie” (ambos de 1955), todos interpretados pelo seu actor de eleição, James Stewart, mas ainda “The Tin Star” (1955), com Henry Fonda, e “Man of the West” (1958), com Gary Cooper. Ele esteve na origem da renovação de um género, conferindo-lhe uma densidade emocional, uma amplitude social e humana invulgar, trabalhando-o num estilo muito próprio, próximo da tragédia grega, para o que contribuiu em muito a complexidade das personagens, a análise das situações, o tratamento estético e plástico, onde serão de destacar algumas características que o notabilizaram, quer no aproveitamento dramático da paisagem e do “décor”, qualquer que ele seja, quer na maneira de enquadrar (utilizando muitas vezes o Cinemascope de forma invulgar), de iluminar, de jogar com os movimentos de câmara, mantendo um classicismo de olhar a que não é alheio, todavia, uma modernidade de tom que ainda hoje impressiona.
Para o reconhecer, basta analisar “The Tin Star”, que nem por isso é uma das suas obras mais perfeitas. Logo no início, a apresentação do protagonista se mostra digna do melhor Mann: Morgan 'Morg' Hickman (Henry Fonda) entra a cavalo numa pequena povoação do Oeste americano, trazendo pela trela uma outra montada, carregando o corpo de um morto tapado por uma manta. A travessia das ruas é acompanhada pelo olhar curioso dos seus habitantes, que perseguem o cavaleiro até ao escritório do xerife. As panorâmicas e os travellling suaves definem não só o espaço físico, como o mental: percebe-se rapidamente a atitude de expectativa e mesmo de hostilidade para com o forasteiro. Morgan, sabe-se depois, é um caçador de prémios, acabou de abater um bandoleiro perseguido pela justiça, e vem reclamar os 10.000 dólares de prémio. Mas, hipocritamente, a comunidade que colocou o cartaz da recompensa, não gosta de caçadores de prémios. Morgan será tolerado apenas enquanto durarem as operações de reconhecimento do corpo e de pagamento da execução. Mesmo assim, nem no hotel lhe facultam um quarto. Acaba hospedado em casa de Nona Mayfield (Betsy Palmer), viúva de um índio, que vive só com o filho. 
Na cidade, o jovem xerife Ben Owens (Anthony Perkins) preenche o lugar que mais ninguém quer ocupar. Manter a ordem é tarefa pesada e de longevidade reduzida. A noiva de Ben pretende afastá-lo do cargo o mais rápido possível, não quer ficar viúva como a mãe, mas Ben é obstinado. Começa por desconfiar de Morgan, mas depois acredita nos seus conselhos e, sobretudo, na agilidade do seu revólver. Morgan conta que anteriormente também ele fora xerife, até se descobrir sozinho numa outra cidade contra os bandoleiros que a aterrorizavam. Percebe o comportamento das multidões e o poder dos que as manipulam. Alerta Ben para o perigo que representa Bart Bogardus (Neville Brand), um arruaceiro que arrebata os concidadãos com as piores razões, desde o descarado racismo (“um índio bom é um índio morto”) até às manifestações primárias de violência, propondo execuções sumárias e tribunais populares organizados ad hoc. 
“The Tin Star” é então o relato de uma iniciação, de uma aprendizagem, baseada na confiança de Ben nos conhecimentos de Morgan. Tudo se precipita quando o velho médico da comunidade, o Dr. Joseph Jefferson 'Doc' McCord (John McIntire), regressa de uma visita a um doente na sua caleche habitual, na manhã do dia do seu 75º aniversário. Mas não regressa de boa saúde. Este é outro dos momentos de eleição deste filme magnífico, assistindo-se à entrada da pequena carruagem que traz o médico, pelas mesma ruas por onde entrara Morgan, com o cavalo caminhando lentamente por entre os magotes de populares que, dos dois lados da rua, cantam os parabéns e saúdam a chegada, até tudo se imobilizar perante o irremediável.
O filme herda alguma da sabedoria colhida pelo autor na sua época de realizador de “filmes negros”, orquestrando a inquietação e o “suspense” de forma hábil. A cilada montada ao médico é magistral, sustentada numa elipse que só os mestres engendram. “Sangue no Deserto” ganha ainda muito com o facto de todas as cenas passadas na pequena cidade terem sido rodadas em estúdio, num cenário especialmente construído de raiz para o efeito. O que permite colocações criteriosas de certas construções, como por exemplo o escritório do xerife, com janelas e porta envidraçadas, abertas sobre as ruas da cidade, permitindo filmar o interior e o exterior, criando uma tensão muito especial. Aliás toda a obra joga com a profundidade de campo de forma eficaz, criando efeitos muito conseguidos, com escassos meios e um rigor de estilo de sublinhar. O argumento, de um especialista, Dudley Nichols, é inteligente e subtil, ainda que, aqui e ali, pudesse ser mais dominado na emoção, sobretudo no que se refere à ligação de Morgan com a viúva e o filho desta. Mas aborda com compreensão e maturidade temas como o racismo, o despotismo, a importância da ordem e da justiça numa sociedade organizada, e, como cereja em cima do bolo, as lições iniciáticas sobre como sobreviver com dignidade, mesmo quando a cidade se acobarda perante a força bruta. Um tema recorrente no cinema americano desta década. Henry Fonda e Anthony Perkins, mestre e discípulo, formam uma dupla excelente. Um belíssimo filme que não deixa de fazer justiça a um grande cineasta, Anthony Mann.


SANGUE NO DESERTO
Título original: The Tin Star
Realização: Anthony Mann (EUA, 1957); Argumento: Dudley Nichols, Joel Kane, Barney Slater; Produção: William Perlberg, George Seaton; Música: Elmer Bernstein; Fotografia (p/b): Loyal Griggs; Montagem: Alma Macrorie; Direcção artística: J. McMillan Johnson, Hal Pereira; Decoração: Sam Comer, Frank R. McKelvy; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Westmore; Assistentes de realização: Michael D. Moore; Som: Hugo Grenzbach, Winston H. Leverett; Companhias de produção: Perlberg-Seaton Productions; Intérpretes: Henry Fonda (Morgan 'Morg' Hickman), Anthony Perkins (xerife Ben Owens), Betsy Palmer (Nona Mayfield), Michel Ray (Kip Mayfield), Neville Brand (Bart Bogardus), John McIntire (Dr. Joseph Jefferson 'Doc' McCord), Mary Webster (Millie Parker), Peter Baldwin (Zeke McGaffey), Richard Shannon (Buck Henderson), Lee Van Cleef (Ed McGaffey), James Bell, Howard Petrie, Russell Simpson, Hal K. Dawson, Jack Kenny, Mickey Finn, etc. Duração: 93 minutos; Distribuição em Portugal: Cine Digital (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 24 de Abril de 1958.



ANTHONY MANN 
(1906 – 1967)
Emil Anton Bundesmann, mais conhecido por Anthony Mann, nasceu a 30 de Junho de 1906, em San Diego, Califórnia, EUA, e viria a falecer a 29 de Abril de 1967, em Berlin, Alemanha, de ataque cardíaco. Casado com Mildred Mann (1936 - 1957) e Sara Montiel (1957 - 1963).
Começou a carreira como actor, em Nova Iorque, na Broadway, onde também encenou e dirigiu alguns espectáculos. Em 1938, David O. Selznick convida-o para Hollywood, onde foi assistente de realização, depois realizador de obras de orçamento reduzido para a RKO e para a Republic Films. Os seus primeiros filmes”, como “Desperate”, “Railroaded!”, “T-Men” e “Raw Deal”, inscrevem-se no género do “film noir”. Ganhou boa fama, consolidada com um conjunto de excelentes westerns, principalmente um ciclo protagonizado por James Stewart, a partir da década de 1950, “Winchester '73” (1950), “Bend of the River” (1952), “The Naked Spur” (1953), “The Far Country”, “The Man from Laramie” (ambos de 1955). Mas também com “The Tin Star” (1955), com Henry Fonda, e “Man of the West” (1958), com Gary Cooper. Mais tarde, assinaria um bom grupo de super-produções históricas para o produtor Samuel Bronston, entre as quais “El Cid” (1961) e “The Fall of the Roman Empire” (1964). Esteve anteriormente ligado a outras, como “Quo Vados” e “Spartacus”.
Anthony Mann é particularmente conceituado entre a crítica internacional. Os seus filmes ostentam um estilo próprio, os temas que abordam denunciam uma forte componente autoral, a tendência para um clima de tragédia suspensa é muito bem concebida, sobretudo nos westerns. O seu gosto plástico, nomeadamente na utilização da paisagem, é facilmente perceptível na criação de um ambiente propício às grandes paixões humanas. Os seus heróis nunca são simples e previsíveis, mas complexos e angustiados. Foi dos que melhor utilizou novas técnicas, como Cinemascope e o Cinerama, e manteve-se fiel ao preto e branco em muitas das suas obras, onde a influência do “filme negro” se fez sentir, mesmo quando tratava temas do Oeste. Possui uma estrela no “Passeio da Fama” de Hollywood, em 6229 Hollywood Blvd.

Filmografia.
Como realizador
1939: The Streets of New York (assina como Anthony Bundsmann) (TV)
1942: Dr. Broadway (Dr. Broadway) (assina como Anton Mann)
1942: Moonlight in Havana (Rumba ao Luar)
1943: Nobody's Darling
1944: My Best Gal (Os Companheiros da Folia)
1944: Strangers in the Night
1945: Two O'Clock Courage
1945: The Great Flamarion
1945: Sing Your Way Home
1946: Strange Impersonation
1946: The Bamboo Blonde
1947: Desperate (Desesperado)
1947: Railroaded !
1947: T-Men (Moeda Falsa)
1948: Raw Deal (Destino em Segunda Mão)
1948: He Walked by Night (O Foragido) (não creditado)
1949: Follow Me Quietly (Segue-me em Silêncio)
1949: Reign of Terror (No Reinado do Terror)
1949: Border Incident
1950: Side Street
1950: The Furies (Almas em Fúria)
1950: Devil's Doorway (O Caminho do Diabo)
1951: Winchester '73 (Winchester 73)
1951: The Tall Target
1951: Quo Vadis, de Mervyn LeRoy (Mann filma o incêndio de Roma – não creditado)
1952: Bend of the River (Jornada de Heróis)
1953: The Naked Spur (Esporas de Aço)
1953: Thunder Bay (A Baía das Tormentas)
1953: The Glenn Miller Story (A História de Glenn Miller)
1954: The Far Country (Terra Distante)
1955: Strategic Air Command (Nem Sempre o Coração Manda)
1955: The Man from Laramie (O Homem Que Veio de Longe)
1955: The Last Frontier (Os Bravos Não Voltam Costas)
1956: Serenade (Serenata)
1957: Men in War (Os Que Sabem Morrer)
1957: The Tin Star (Sangue no Deserto)
1958: God's Little Acre (Tentação!)
1958: Man of the West (O Homem do Oeste)
1960: Spartacus (Spartacus) (iniciado por Mann, terminado por Stanley Kubrick)
1960: Cimarron (Cimarron)
1961: Le Cid (El Cid)
1964: The Fall of the Roman Empire (A Queda do Império Romano)
1965: The Heroes of Telemark (Os Heróis de Telemark)
1968: A Dandy in Aspic (À Beira do Pânico) (terminado por Laurence Harvey)

ANTHONY PERKINS 
(1932 – 1992)
Nasceu a 4 de Abril de 1932, em Nova Iorque, EUA, e faleceu a 12 de Setembro de 1992, com 60 anos, em Hollywood, Los Angeles, Califórnia, EUA, vítima de uma pneumonia, agravada pela Sida. Descobriu que era seropositivo, através de uma revista, a "National Enquirer", que, em 1990, escreveu um artigo sobre ele, depois de ter acesso, indevido, a um teste sanguíneo que havia feito anos antes.
Casado com Berry Berenson (1973 - 1992), irmã da actriz Marisa Berenson, nunca negou a sua homossexualidade. Consta que a sua primeira relação hetero foi com a actriz Victoria Principal, durante a rodagem de “O Juiz Roy Bean” (1972). (Berry Berenson foi uma das vítimas do 11 de Setembro de 2001, no World Trade Center).
Filho de um famoso actor da Broadway, Osgood Perkins, que se pode ver no cinema em “Scarface” (1932). Osgood morreu quando o filho tinha cinco anos, ficando a educação deste a cargo da mãe, uma mulher "muito possessiva e bastante problemática" (segundo palavras de Anthony). Estudou no Rollins College, no Winter Park, Florida, e na Buckingham Browne & Nichols, de Cambridge, Massachusetts, mas não conclui os estudos.
Estreou-se no teatro aos 14 anos e no cinema em 1953, num filme de George Cukor, “A Actriz”. Em 1956, foi nomeado para Melhor Actor Secundário pelo seu trabalho em “Sublime Tentação”, de William Wyler. Mas o papel da sua vida foi o de Norman Bates, um “serial killer”, em “Psico”, de Alfred Hitchcock (1960), que teve várias continuações (uma das quais realizada pelo próprio Anthony Perkins) e que marcaria para sempre a sua carreira: a partir daí seria escolhido essencialmente para personagens neuróticas ou traumatizadas. A sua criação de Norman Bates valeu-lhe o quarto lugar na lista das “100 Greatest Movie Characters of All Time”, publicada pela “Premiere Magazine”.

Filmografia:   
Como actor
1953: The Actress (A Actriz), de George Cukor
1953: The Big Story (série de TV) - episódio “Robert Billeter of the Pendleton Times of Franklin, West Virginia” 
1954: The Man Behind the Badge (série de TV) - episódios “The Case of the Narcotics Racket” e “The East Baton Rouge Story”
1954: Armstrong Circle Theatre (série de TV) - episódio “The Fugitive” 
1955: General Electric Theater (série de TV) - episódio “Mr. Blue Ocean” 
1955: Windows (série de TV) - episódio “The World Out There” 
1956: Friendly Persuasion (Sublime Tentação), de William Wyler
1956: Goodyear Television Playhouse (série de TV) - episódio “Joey” 
1956: Front Row Center (série de TV) episódio “Winter Dreams” 
1956: Studio One (série de TV) - episódio “The Silent Gun” 
1957: The Lonely Man (O Cavaleiro Solitário), de Henry Levin
1957: Fear Strikes Out (Vencendo o Medo), de Robert Mulligan adulte.
1957: The Tin Star (Sangue no Deserto) de Anthony Mann
1958: Desire Under the Elms (Desejo Sob os Ulmeiros) de Delbert Mann
1958: Barrage contre le Pacifique ou This Angry Age, de René Clément
1958: The Matchmaker (Viva o Casamento), de Joseph Anthony
1959: Green Mansions (A Flor que não Morreu), de Mel Ferrer
1959: On the Beach (A Hora Final), de Stanley Kramer
1960: Tall Story (Adeus, Inocência), de Joshua Logan
1960: Psycho (Psico), de Alfred Hitchcock
1961: Goodbye Again ou Aimez-vous Brahams ? (Mais Uma Vez, Adeus), de Anatole Litvak
1962: Phaedra (Fedra), de Jules Dassin
1962: Il Coltello nella piaga (A Fronteira da Noite), de Anatole Litvak
1962: Le Procès (O Processo), de Orson Welles
1963: Le Glaive et la Balance, de André Cayatte.
1964: Une Ravissante Idiote (Uma Encantadora Idiota), de Édouard Molinaro
1966: Paris Brûle-t-il ? (Paris Já Está a Arder?), de René Clément
1966: Evening Primrose (telefime)
1967: Le Scandale (Champanhe Escandaloso), de Claude Chabrol
1968: Pretty Poison (Doce Veneno), de Noel Black
1968: BBC Play of the Month (série de TV) - episódio The Male Animal 
1970: Catch 22 (Artigo 22), de Mike Nichols
1970: W.U.S.A. (Muro de Separação), de Stuart Rosenberg
1970: How Awful About Allan (série de TV)
1971: La Décade Prodigieuse (A Década Prodigiosa), de Claude Chabrol
1971: Quelqu'un Derrière la Porte (Dívida de Ódio), de Nicolas Gessner
1972: The Life and Times of Judge Roy Bean (O Juiz Roy Bean), de John Huston.
1972: Play It As It Lays, de Frank Perry
1974: Murder on the Orient Express (O Crime do Expresso do Oriente), de Sidney Lumet
1974: Lovin' Molly, de Sidney Lumet
1975: Mahogany, de Berry Gordy (e Tony Richardson, este não creditado)
1978: Les Miserables (Os Miseráveis) de Glenn Jordan (TV)
1978: First, You Cry (telefilme)
1978: Remember My Name (Recorda o Meu Nome), de Alan Rudolph
1979: The Black Hole (Abismo Negro), de Gary Nelson
1979: Twee Vrouwen ou Twice a Woman, de George Sluizer
1979: Winter Kills (Pela Mira da Espingarda), de William Richert
1979: Ffolkes (Assalto no Alto Mar), de Andrew V. McLaglen
1980: Double Negative, de George Bloomfield
1983: Psychose II (Psico II), de Richard Franklin
1983: The Sins of Dorian Gray (telefilme)
1983: For the Term of His Natural Life (telefilme)
1984: Crimes of Passion (As Noites de China Blue), de Ken Russell
1984: The Glory Boys (série de TV)
1985: Psychose III (Psico III), de Anthony Perkins
1989: Dr. Jekyll et Mr. Hyde (À Beira da Loucura), de Gérard Kikoïne
1990: Psychose IV, de Mick Garris (telefilme)
1990: Psycho IV: The Beginning (telefilme)
1990: The Ghost Writer (telefilme)
1990: I'm Dangerous Tonight (telefilme)
1990: Daughter of Darkness (telefilme)
1991: Der Mann Nebenan, de Petra Haffter
1992: In the Deep Woods (A Escada de Corda), de Charles Correll (telefilme)
1992: Los Gusanos no Llevan Bufanda, de Javier Elorrieta

SESSÃO 34: 30 DE JUNHO DE 2014


 A SOMBRA DO CAÇADOR (1955)

"The Night of the Hunter” é um dos casos mais estranhos da história do cinema mundial. Um filme inusitado, cuja realização é assinada por um dos maiores actores anglo-saxónicos de sempre, que apenas dirigiu um filme (e uma pequena participação num outro), e que, apesar da modesta recepção de público e de crítica aquando da sua estreia, se afirma presentemente como uma obra de culto, uma obra-prima inquestionável, e um dos marcos indiscutíveis do cinema de autor norte-americano. O facto de vir assinado por Charles Laughton é, desde logo, um bom princípio pois este foi seguramente um dos actores (e não só, também encenador, dramaturgo, tradutor, leitor, etc.) mais cultos, mais sensíveis e empenhados que o mundo anglo-saxónico conheceu. Mas estranha-se realmente que um cineasta que conseguiu criar uma tal obra se tenha quedado por esta aproximação à direcção, e depois dela tenha desistido de outras tentativas. A crer no que o próprio autor confessou, a reacção que a obra conheceu no seu tempo desiludiu-o de tal forma que o terá renunciado a prosseguir a carreira por esta via. O que se afigurou, posteriormente, como um crime de lesa cinema. Mas o que conta é o que existe, e o que vemos apenas é esta admirável “A Sombra do Caçador”, filme único de um cineasta único.  
O argumento vem assinado por James Agee e o próprio Charles Laughton, que adaptam um romance de Davis Grubb. O resultado é uma obra incatalogável, que se aproxima do cinema expressionista, surrealista, simbólico, poético, mas que recusa qualquer classificação. É único e assim permanecerá, obrigando o espectador a olhá-lo tal e qual, com um olhar límpido e uma predisposição à diferença.
Robert Mitchum desempenha aqui um dos papéis da sua vida, ao interpretar a figura do "Reverendo'' Harry Powell, que se passeia de terra em terra com as suas mãos tatuadas. Em quatro dedos da mão direita tem escrito L-O-V-E, enquanto nos equivalentes dedos da mão esquerda tem H-A-T-E. E conta, a quem se predispuser a ouvi-lo, a história da luta entre o A-M-O-R e o Ó-D-I-O, numa interpretação muito sua. Mas o filme inicia-se logo por uma imagem premonitória, um grande plano de Rachel (Lillian Gish), rodeada por rostos de crianças, que nos avisa que devemos “livrar-nos dos falsos pregadores”, e que “não pode a árvore corrompida dar bons frutos”.
Harry Powell faz depois a sua aparição e ele nos guiará nessa peregrinação de horror. Ele anda pelas povoações rurais da América a espalhar o que ele chama “a palavra do Senhor”, servindo-se dela para cometer os piores crimes, casando com viúvas solitárias a quem rouba as economias para depois as assassinar. Quando descobre que Willa Harper (Shelley Winters) acaba de ficar viúva, depois do marido ser condenado à morte após ter roubado 10.000 dólares para dar de comer à família e que não os restituiu, vem ter com ela e os seus dois filhos, para localizar o dinheiro. Mas quem sabe onde os dólares se encontram escondidos são as duas crianças e este facto é o bastante para o "Reverendo'' Harry Powell tudo fazer para ganhar primeiro a confiança de John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce), para a seguir, não conseguindo os seus intentos, persegui-los da forma mais terrível.  
Esta descida pelas águas de um rio é um dos momentos perturbantes desta obra. Enquanto a barcaça avança na noite, nas margens um verdadeiro bestiário se descobre, a começar por uma aranha tecendo a sua teia, passando depois sucessivamente por rãs, coelhos, tartarugas, mochos, vacas, cães, cabras, raposas, que vão espiando os movimentos dos dois miúdos, enquanto, recortada no fio do horizonte, se vai assistindo à passagem de Harry Powell, montado num cavalo, entoando cânticos religiosos. É o puro terror, a ameaça mais temível, inspirada pelo que deveriam ser toadas de amor e generosidade. Perturbante.
A acção decorre nos anos 30, em plena depressão económica na América profunda, e esta exploração dos sentimentos mais puros e primitivos de cidadãos sem defesa chega a ser trágica. “A vida é dura para os pequenos”, diz Rachel, que aqui personifica a verdadeira religiosidade que não se exime a defender pela força o seu rebanho. Os “pequenos” são obviamente as crianças, mas, de uma forma mais vasta, também todos os desprotegidos e explorados, todos os simples e puros. 
Curiosamente, este filme de horror como poucos, acaba num clima de filme natalício, mostrando assim a forma como a Humanidade balanceia entre o Bem e o Mal, o Amor e o Ódio de que falava Harry Powell. Mas a imagem do corrupto e puritano “Reverendo” que se apavora com a imagem de uma bailarina, e se serve da boa vontade da crédula comunidade ode se instala e que desfruta, acompanhará para sempre a recordação dos seus espectadores.
O filme vive muito, igualmente, de uma fotografia a preto e branco (com assinatura de Stanley Cortez), contrastada, iluminada de forma expressionista, jogando com sombras e luz, como nessa admirável cena passada no interior e exterior de um estábulo, onde as crianças de refugiam, ou nas sequências finais, em casa de Rachel. O momento em que Harry Powell se coloca frente a essa casa, como um animal à espera da sua vítima, e o jogo que se estabelece entre o interior e o exterior da casa, com sombras que se agigantam e sons que atemorizam, é outro momento de sublime inspiração. Não esquecer ainda a banda sonora, onde a música e a escolha dos sons, é primorosa para criar a genuína tensão e inquietação que justificam.
Mitchum é magistral e há quem diga que este é o seu papel mais “pessoal”, onde terá deixado vir ao de cima um pouco da sua própria personalidade, aliada à genialidade do seu talento. Shelly Winters e os cidadãos da pequena cidade são magníficos, bem como as duas crianças. Mas deverá ainda ressalvar-se o trabalho notável de uma das maiores actrizes do cinema mudo norte-americano, Lillian Gish, que consegue um desempenho admirável, conjugando determinação e generosidade de forma expressiva e singular.
Creio que quem assistir uma vez a “The Night of the Hunter” não se sentirá o mesmo após a sua exibição. Honra seja feita a Charles Laughton e ao seu filme único. 

A SOMBRA DO CAÇADOR
Título original: The Night of the Hunter
Realização: Charles Laughton (e ainda Robert Mitchum e Terry Sanders, não creditados) (EUA, 1955); Argumento: James Agee, Charles Laughton, segundo romance de Davis Grubb; Produção: Paul Gregory; Música: Walter Schumann; Fotografia (p/b): Stanley Cortez; Montagem: Robert Golden; Casting: Millie Gusse; Direcção artística: Hilyard M. Brown; Decoração: Alfred E. Spencer; Maquilhagem: Don L. Cash, Kay Shea; Direcção de produção: Ruby Rosenberg, Frank Parmenter; Assistentes de realização: Milton Carter, Frank Parmenter, Terry Sanders, Jack Sonntag; Departamento de arte: Joe LaBella; Som: Stanford Houghton; Efeitos especiais: Louis DeWitt, Jack Rabin; Companhias de produção: Paul Gregory Productions; Intérpretes: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper), Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Birdie Steptoe), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Don Beddoe (Walt Spoon), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper), Gloria Castillo, Emmett Lynn, Corey Allen, Michael Chapin, George Wallace, etc. Duração: 93 minutos; Distribuição em Portugal: MGM (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 15 de Maio de 1963.

CHARLES LAUGHTON (1899-1962)
Charles Laughton nasceu a 1 de Julho de 1899, em Scarborough, Yorkshire, Inglaterra, UK, e faleceu a 15 de Dezembro de 1962, em Hollywood, Los Angeles, Califórnia, EUA, vítima de cancro. Sepultado no Forest Lawn, Hollywood Hills, Los Angeles, no “Court of Remembrance”.
Filho de Robert Laughton e Elizabeth Conlon, hoteleiros, começou a trabalhar com os pais a partir de 1915, sendo recrutado para a I Guerra Mundial, onde serviu numa unidade de bicicletas. Estudou depois na Royal Academy of Dramatic Art, em Londres, estreando-se no palco em 1926. Criou uma companhia produtora de filmes, juntamente com Erich Pommer, a Mayflower Pictures Corp. (1937). Encontra Elsa Lanchester, actriz, com quem casa em 1929 e com quem vive até à morte, apesar de ser notoriamente homossexual. Partiu para a América, tendo-se naturalizado cidadão americano em 1950. Tornou-se um actor com reputação firmada dos dois lados do Atlântico, quer como actor de teatro, cinema e televisão, quer como dramaturgo e escritor, como encenador e realizador (“A Sombra do Caçador” bastou para o colocar entre os nomes maiores da realização mundial).  
Senhor de um físico respeitável, serviu-se dele de forma magnífica para criar papéis inesquecíveis, como “A Vida Privada de Henrique VIII” (1933, que lhe valeu um Oscar), “Rembrandt” (1936), “I, Claudius” (1937), “Revolta na Bounty” (1935), “Mister Ginger no Pacífico” (1938), “Olhos na Noite” (1948), “Nossa Senhora de Paris” (1950) “Testemunha de Acusação” (1957) ou “Tempestade Sobre Washington” (1962).
Se como actor a sua estatura é enorme, como realizador de um único filme, tornou-se uma lenda, apesar de não ter sido muito bem recebido na altura da sua estreia. Mas 1955 era um ano difícil, Laughton estava entre os homens de cinema e teatro olhado com ostracismo pela Comissão das Actividades Anti-Americanas, e a natureza do seu filme não ajudou muito. Mas pouco tempo depois ganhava estatuto de obra-prima e de obra de culto. 

Filmografia:
Como realizador:
1950: 1950: The Man on the Eiffel Tower (O Homem da Torre Eiffel), de Burgess Meredith, Charles Laughton e Irving Allen, segundo o romance “La Tête de l'Homme”, de Georges Simenon EUA/ FR
1955: The Night of the Hunter (A Sombra do Caçador)

Como actor
1928: Daydreams, de Ivor Montagu (curta-metragem) UK
1928: Blue Bottles, de Ivor Montagu (curta-metragem) UK
1928: The Tonic (curta-metragem) UK
1929: Piccadilly, de Arnold Bennett UK 
1930: Wolves, de Albert de Courville (curta-metragem) UK
1931: Down River, de Peter Godfrey UK
1932: Payment Deferred, de Lothar Mendes EUA
1932: The Old Dark House (A Velha Casa Sombria), de James Whale
1932: The Sign of the Cross (O Sinal da Cruz), de Cecil B. DeMille
1932: Devil and the Deep (Entre Duas Águas), de Marion Gering
1932: If I had a Million (Se Eu Tivesse Um Milhão), de James Cruze, H. Bruce Humberstone, Ernst Lubitsch, Norman Z. McLeod, Lothar Mendes, Stephen Roberts, William A. Seiter e Norman Taurog
1933: Island of Lost Souls (A Ilha das Almas Selvagens), de Erle C. Kenton
1933: The Private Life of Henry VIII (A Vida Privada de Henrique VIII), de Alexander Korda UK
1933: White Woman, de Stuart Walker
1934: The Barretts of Wimpole Street (As Virgens de Wimpole Street), de Sidney Franklin
1935: Les Misérables, de Richard Boleslawski
1935: Mutiny on the Bounty (Revolta na Bounty), de Frank Lloyd
1935: Ruggles of Red Gap (O Extravagante Senhor Ruggles), de Leo McCarey
1936: Rembrandt (Rembrandt), de Alexander Korda UK
1937: I, Claudius, de Denis Kavanagh e Josef von Sternberg (inacabado) UK
1938: Vessel of Wrath ou The Beachcomber (Mister Ginger no Pacífico), de Erich Pommer UK
1938: St. Martin's Lane ou Sidewalks of London (Ilusões Perdidas) de Tim Whelan  UK
1939: The Hunchback of Notre Dame (Nossa Senhora de Paris), de William Dieterle
1939: Jamaica Inn (A Pousada da Jamaica), de Alfred Hitchcock UK
1940: They Knew What They Wanted (O Outro), de Garson Kanin
1941: It Started with Eve (Noiva de Ocasião), de Henry Koster
1942: Tales of Manhattan (Seis Destinos), de Julien Duvivier
1942: Stand By for Action ou Cargo of Innocents (Torpedeado!), de Robert Z. Leonard
1942: The Tuttles of Tahiti (Náufragos de Tahiti), de Charles Vidor
1943: The Man From Down Under, de Robert Z. Leonard
1943: Vivre libre (Esta Terra é Minha) de Jean Renoir
1943: Forever and a Day (Para Sempre e Mais um Dia), de René Clair, Edmund Goulding, Cedric Hardwicke, Frank Lloyd, Victor Saville, Robert Stevenson e Herbert Wilcox
1944: The Suspect (Eu Matei!), de Robert Siodmak
1944: Le Fantôme de Canterville (Fantasmas à Solta), de Jules Dassin e Norman Taurog
1944: Passport to Destiny, de Ray McCarey (só aparece uma fotografia de CL)
1945: Captain Kidd (O Capitão Kidd), de Rowland V. Lee
1946: Because of Him (Por Causa Dele), de Richard Wallace
1947: Galileo ou Leben des Galilei, de Ruth Berlau e Joseph Losey (curta-metragem)
1948: On Our Merry Way (Tudo Pode Acontecer), de Leslie Fenton, King Vidor, John Huston, George Stevens (os dois últimos não creditados) (cenas cortadas)
1947: The Paradine Case (O Caso Paradine), de Alfred Hitchcock
1948: The Big Clock (Olhos na Noite), de John Farrow
1948: The Girl from Manhattan (O Anjo, o Diabo e o Amor), de Alfred E. Green
1948: Arch of Triumph (O Arco do Triunfo), de Lewis Milestone
1949: The Bribe (Veneno dos Trópicos de Robert Z. Leonard
1950: The Man on the Eiffel Tower (O Homem da Torre Eiffel), de Burgess Meredith, Charles Laughton e Irving Allen EUA/ FR
1951: The Blue Veil (O Véu Azul), de Curtis Bernhardt
1951: The Strange Door (O Castelo Maldito), de Joseph Pevney
1952: O. Henry's Full House (Páginas da Vida), de Henry Hathaway, Howard Hawks, Henry King, Jean Negulesco e Henry Koster (qu dirige o episódio “The Cop and the Anthem” onde aparece Laughton e Marilyn Monroe
1952: Abbott and Costello Meet Captain Kidd (Encontro com o Capitão Kidd), de Charles Lamont
1953: Salome ou Salome, The Dance of the Seven Veils (Salomé), de William Dieterle
1953: Young Bess (Amor de Rainha), de George Sidney
1953: This Is Charles Laughton (série de TV)
1954: Hobson's Choice (As Filhas do Sr. Hobson), de David Lean UK
1956: The Ed Sullivan Show (série de TV)
1956: Ford Star Jubilee (série de TV) episódio “The Day Lincoln Was Shot” (narrador)
1957: Witness for the Prosecution (Testemunha de Acusação), de Billy Wilder
1957-1959: General Electric Theater (série de TV) episódios “The Last Lesson”, “A New York Knight”, “Mr. Kensington's Finest Hour”
1958: Studio 57 (série de TV) episódio “Stopover in Bombay”
1959: On Trial (TV series)
1959: A Midsummer Night's Dream (telefime)
1960: Spartacus (Spartacus), de Stanley Kubrick
1960: Under Ten Flags (Sob Dez Bandeiras), de Duilio Coletti EUA/IT
1960: Wagon Train (série de TV) episódio “The Albert Farnsworth Story”
1960: Playhouse 90 (série de TV) episódio “In the Presence of Mine Enemies”
1961: Checkmate (TV series) episódio “Terror from the East”
1962: Advise and Consent (Tempestade Sobre Washington), de Otto Preminger

Teatro
Como actor
1926: The Revizor (O Inspector Geral), de Nicolas Gogol UK
1928: Alibi, adaptação teatral de The Murder of Roger Ackroyd, de Agatha Christie. Primeira
Aparição no teatro do detective Hercule Poirot.
1931: Payment Deferred, adaptação teatral de C. S. Forester EUA
1932: The Fatal Alibi adaptação teatral The Murder of Roger Ackroyd, de Agatha Christie, agora nos palcos de NI
1947: Galileo, de Bertolt Brecht
1950: The Cherry Orchard (O Cerejal) de Anton Tchekhov
1951 e 1952: Don Juan in Hell, de George Bernard Shaw
1956 e 1957: Major Barbara, de George Bernard Shaw
1959: King Lear, de William Shakespeare

Encenações:
1932: The Fatal Alibi
1951 e 1952: Don Juan in Hell
1953: John Brown's Body, de Stephen Vincent Benét
1954 à 1955: The Caine Mutiny, adaptação teatral de Herman Wouk
1956 e 1957: Major Barbara, de George Bernard Shaw

ROBERT MITCHUM (1917 – 1997)
Robert Charles Durman Mitchum nasceu a 6 de Agosto de 1917, em Bridgeport, Connecticut, EUA, e faleceu a 1 de Julho de 1997, com 79 anos, de cancro de pulmão e enfisema, em Santa Barbara, Califórnia, EUA. A mãe, Ann Harriet, era imigrante norueguesa, e o pai, James Thomas Mitchum, de origem irlandesa, trabalhou num estaleiro e no caminho-de-ferro, onde faleceu tinha Mitchum dois anos de idade. Irrequieto e indisciplinado, foi expulso de alguns estabelecimentos de ensino, o que levou a mãe a transferi-lo para os avós, em Felton, onde continuou a sua saga. Em 1930, foi morar com sua irmã mais velha, em Nova York. Viajou por todo o país, em vagões de comboio, tendo desempenhado várias tarefas, chegando a ser pugilista profissional. Em Savannah, Geórgia, foi preso por vadiagem. Fugiu, voltou para a família, em Delaware, onde conheceu a adolescente Dorothy Spence, com quem viria a casar (e com quem se manteve até à sua morte). Voltou para a estrada. Mas em 1936, a irmã Julie convence-o a participar na companhia do teatro local. Aparece como actor e dramaturgo. Em 1940 casa-se, nasce o primeiro filho, e Robert arranja um emprego estável, como operador de máquinas. Depois de um acidente em que quase ficou cego, dedica-se inteiramente ao cinema, como figurante e actor em pequenos papéis de filmes de serie B, sobretudo westerns protagonizados por Hopalong Cassidy. Entre 1942 e 1943 entra em dezenas de obras e a sua carreira não pára, com prestações cada vez mais significativas. Foi definitivamente, entre os anos 40 e 60, um dos maiores actores do cinema americano, com uma característica muito própria, interpretando personagens do filme negro, do policial, do western ou de filmes de guerra, com uma aparente indiferença que cativava e surpreendia. 
Em 1992, foi-lhe atribuído o Cecil B. DeMille Award, pela sua contribuição para a arte cinematográfica. Em 1946, foi nomeado para o Oscar de Melhor Actor Secundário pela actuação em “Também Somos Seres Humanos”. Em 1984, recebeu uma estrela no “Walk of Fame”, que ficou situada no 6240, Hollywood Blvd.

Filmografia:
1942: The Magic of Make-Up (documentário)
1942: Saboteur (Sabotagem), de Alfred Hitchcock
1943: The Human Comedy (A Comédia Humana), de Clarence Brown
1943: Hoppy Serves a Writ (Justiça a Murro), de George Archainbaud
1943: Aerial Gunner (Combate Aéreo), de William H. Pine
1943: Border Patrol (Patrulha da Fronteira), de Lesley Selander
1943: Follow the Band (Siga a Música), de Jean Yarbrough
1943: The Leather Burners (No Fundo da Mina), de J. E. Henabery
1943: Colt Comrades (Traidor à Vista), de Lesley Selander
1943: We've Never Been Licked (Nós Nunca Fomos Vencidos!), Jack Rawlins
1943: The Lone Star Trail, de Ray Taylor
1943: Action in the North Atlantic (Comboio para Leste)), de Lloyd Bacon, Byron Haskin e Raoul Walsh (não creditado)
1943: Beyond the Last Frontier (A Última Fronteira), de Howard Bretherton
1943: Corvette K-225 (Corveta K-225), de Robert Rossen
1943: Bar 20 (Esporas de Prata), de Lesley Selander
1943: Doughboys in Ireland, de Lew Landers
1943: Bataan (Os Heróis de Bataan), de Tay Garnett
1943: A Boy Named Joe (Um Certo Rapaz), de Victor Fleming
1943: False Colors (O Homem Mascarado), de George Archainbaud
1943: Minesweeper, de William Berke
1943: The Dancing Masters (Bucha e Estica Mestres de Dança), de Malcolm St. Clair
1943: Cry 'Havoc' (Elas Também Combateram), de Richard Thorpe
1943: Riders of the Deadline,
1943: Gung Ho! (A Selva em Armas), de Ray Enright
1944: Johnny Doesn't Live Here Anymore, de Joe May
1944: Mr. Winkle Goes to War (A Sua Grande Ambição) (não creditado)
1944: When Strangers Marry, de William Castle
1944: The Girl Rush, de Gordon Douglas
1944: Thirty Seconds over Tokyo (Trinta Segundos Sobre Tóquio), de Mervyn LeRoy
1944: Nevada (Nevada), de Charles Barton
1945: The Story of G.I. Joe (Também Somos Seres Humanos), de William A. Wellman
1945: West of the Pecos, de Edward Killy
1946: Till the End of Time (O Direito à Vida), de Edward Dmytryk
1946: Undercurrent (Estranha Revelação), de Vincente Minnelli
1946: The Locket (O Medalhão Maldito), de John Brahm
1947: Pursued (Núpcias Trágicas), de Raoul Walsh
1947: Crossfire (Encruzilhada), de Edward Dmytryk
1947: Desire Me (A Mulher do Outro), de George Cukor
1947: Out of the Past (O Arrependido), de Jacques Tourneur
1948: Rachel and the Stranger (Raquel, a Escrava Branca), de Norman Foster
1948: Blood on the Moon (Céu Vermelho), de Robert Wise
1949: The Red Pony (O Potro Vermelho), de Louis MIlestone
1949: The Big Steal (O Grande Assalto), de Donald Siegel
1949: Holiday Affair (Quando as Viúvas Querem Casar), de Don Hartman
1950: Where Danger Lives (A Infiel), de John Farrow
1950: Screen Snapshots: Hollywood Goes to Bat, de Ralph Staub (curta-metragem)
1951: My Forbidden Past (Duas Rivais), de Robert Stevenson
1951: His Kind of Woman (Redenção), de John Farrow
1951: The Racket (Suborno), de John Cromwell
1952: Macao (Macau), de Josef von Sternberg
1952: One Minute to Zero (Missão na Coreia), de Tay Garnett
1952: The Lusty Men (Idílio Selvagem), de Nicholas Ray
1952: Angel Face (Vidas Inquietas), de Otto Prerminger
1953: White Witch Doctor (A Feiticeira Branca), de Henry Hathaway
1953: Second Chance (Cruel Perseguição), de Rudolph Maté
1954: She Couldn't Say No (Bonita e Audaciosa), de Lloyd Bacon
1954: River of No Return (Rio sem Regresso), de Otto Preminger
1954: Track of the Cat, de William A. Wellman
1955: Not as a Stranger (Médico e Só Médico), de Stanley Kramer
1955: The Night of the Hunter (A Sombra do Caçador), de Charles Laughton
1955: Man with the Gun (Sozinho Contra a Cidade), de Richard Wilson
1956: Foreign Intrigue (A Um Passo da Morte), de Sheldon Reynolds
1956: Bandido (Bandido), de Richard Fleischer
1957: Heaven Knows, Mr. Allison (O Espírito e a Carne), de John Huston
1957: Fire Down Below (Fogo dos Trópicos), de Robert Parrish
1957: The Enemy Below (Duelo no Atlântico), de Dick Powell
1958: Thunder Road (Beco sem Saída), de Arthur Ripley
1958: The Hunters (Duas Paixões), de Dick Powell
1959: The Angry Hills (As Colinas da Ira), de Robert Aldrich
1959: The Wonderful Country (Quem Ventos Semeia), de Robert Parrish
1960: Home from the Hill (A Casa da Colina), de Vincente Minnelli
1960: A Terrible Beauty, de Tay Garnett
1960: The Sundowners (Três Vidas Errantes), de Fred Zinnemann
1960: The Grass Is Greener (Ele, Ela e o Marido), de Stanley Donen
1961: The Last Time I Saw Archie (O General era Soldado), de Jack Webb
1962: Cape Fear (Barreira do Medo), de J. Lee Thompson
1962: The Longest Day (O Dia Mais Longo), de Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki
1962: Two for the Seesaw (Baloiço para Dois), de Robert Wise
1963: The List of Adrian Messenger (As Cinco Caras do Assassino), de John Huston
1963: Rampage (Dois Homens, uma Mulher), de Phil Karlson
1964: Man in the Middle (Conselho de Guerra), de Guy Hamilton
1964: What a Way to Go! (Ela e os Seus Maridos), de J. Lee Thompson
1965: Mister Moses (O Renegado da Selva), de Ronald Neame
1966: El Dorado (El Dorado), de Howard Hawks
1967: The Way West (A Caminho do Oregon), de Andrew V. McLaglen
1968: Villa Rides (A Honra de Um Herói), de Buzz Kulik
1968: Lo Sbarco di Anzio (A Batalha de Anzio), de Duilio Coletti e Edward Dmytryk
1968: 5 Card Stud (O Preço de Cinco Jogadores), de Henry Hathaway
1968: Secret Ceremony (Cerimónia Secreta), de Joseph Losey
1969: Young Billy Young (Vingança no Arizona), de Burt Kennedy
1969: The Good Guys and the Bad Guys (Os Bons e os Maus), de Burt Kennedy
1970: Ryan's Daughter (A Filha de Ryan), de David Lean
1971: Going Home (A Mancha do Passado), de Herbert B. Leonard
1972: The Wrath of God (A Cólera de Deus), de Ralph Nelson
1973: The Friends of Eddie Coyle (Selva Humana), de Peter Yates
1973: America on the Rocks (Curta-metragem TV)
1975: The Yakuza (Yakuza) - de Sydney Pollack
1975: Farewell, My Lovely (O Último dos Duros), de Dick Richards
1976: Midway (A Batalha de Midway), de Jack Smight
1976: The Last Tycoon (O Grande Magnate), de Elia Kazan
1977: The Amsterdam Kill (Operação Amsterdam), de Robert Clouse
1978: Matilda (Matilda - O Grande Acontecimento), de Daniel Mann
1978: The Big Sleep (O Sono Derradeiro), de Michael Winner
1979: Breakthrough (A Grande Ofensiva), de Andrew V. McLaglen
1980: Agency (Encontro com o Perigo), de George Kaczender
1980: Nightkill, de Ted Post
1982: That Championship Season, de Jason Miller
1982: One Shoe Makes It Murder (telefilme)
1983: The Winds of War (Mini-série de TV)
1983: A Killer in the Family (telefilme)
1984: The Ambassador (O Embaixador), de J. Lee Thompson
1984: Maria's Lovers (Os Amantes de Maria), de Andrei Konchalovsky
1985: North and South (Mini-série de TV)
1985: Promises to Keep (telefilme)
1985: Reunion at Fairborough (telefilme)
1985: The Hearst and Davies Affair (telefilme)
1986: Thompson's Last Run (TV movie)
1987: The Equalizer (TV series)
1987: Remembering Marilyn (documentário)
1987: Marilyn Monroe: Beyond the Legend (documentário)
1988: Mr. North (Mr. North, um Homem de Sonho), de Danny Huston
1988: War and Remembrance (Mini-série)
1988: Scrooged (S.O.S. Fantasmas), de Richard Donner
1989: John Huston: The Man, the Movies, the Maverick (documentário)
1989: Brotherhood of the Rose (TV movie)
1989: Eyes of War (TV movie)
1989: Armadilha de Morte (TV movie)
1990: Midnight Ride, de Bob Bralver
1990: Waiting for the Wind (curta-metragem)
1990: Believed Violent (Ameaça Potencial)
1990: A Family for Joe (TV series)
1990: A Family for Joe (TV movie)
1991: Cape Fear (O Cabo do Medo), de Martin Scorsese
1992: Les Sept Péchés Capitaux ou The Seven Deadly Sins, de Beatriz Flores Silva, Frédéric Fonteyne, Yvan Le Moine, Geneviève Mersch, Pierre-Paul Renders, Olivier Smolders e Pascal Zabus
1992: African Skies (TV series)
1993: Woman of Desire, de Robert Ginty
1993: Tombstone (Tombstone), de George P. Cosmatos, Kevin Jarre (narrador)
1995: Backfire!, de A. Dean Bell
1995: Pakten ou Waiting for Sunset, de Leidulv Risan
1995: Dead Man (Homem Morto), de Jim Jarmusch
1995: The Marshal (TV series)– The New Marshal
1996: Wild Bill: Hollywood Maverick (documentário)
1997: James Dean: Race with Destiny (TV movie)